Tudo começou há onze anos, quando descobri a minha doença.
Eu era uma criança saudável, como qualquer outra da minha idade. Tinha doze anos, estudava, levava uma vida normal.
Mas o destino colocou uma pedra no meu caminho. Sem que eu notasse, meu corpo começou a inchar. Fui ao médico com minha mãe. Fui examinada e passei por vários exames. O médico achava que podia ser um problema de rins, mas os exames não acusaram nada. Meu corpo continuava inchando, então minha mãe levou-me ao hospital da Santa Casa onde passei horas na fila esperando para ser atendida. Consultei-me com um médico que não recordo o nome que me pediu um raio X do tórax, pois achava que o problema que eu tinha era de coração e ele estava certo. Eu estava com um grave problema, miocardiopatia dilatada.
Passei a fazer um tratamento com um cardiologista conhecido da família mas os remédios já não estavam fazendo efeito, minha pressão estava baixa de mais. Um dia, era madrugada, comecei a passar mal, minha pressão se juntou, tive que ir para um hospital e me levaram ao Instituto de Cardiologia. A partir deste dia começou a minha luta pela vida.
Cada dia que passava, a doença se agravava, remédios já não adiantavam, a cada consulta com a Dra. Estela era um remédio diferente.
Passava mais tempo internada do que em minha casa. Era tratada com muito carinho pelos médicos e enfermeiros, mas eu odiava todos eles. Fui proibida de caminha muito longe, de dançar, não podia fazer nada.
Fui me revoltando com tudo, já não agüentava mais ouvir tanto não faz isso, não pode isso, mas eu não obedecia, fazia de tudo. Chegou um dia em que não agüentei, já não tinha mais força, nem conseguir tomar banho sozinha eu conseguia mais. Passaram-se dois anos, já havia parado de estudar, ficava a maior parte do tempo deitada numa cama. Foi aí que os médicos decidiram que a única solução era um transplante. Levei um choque e não aceitei, custei a assinar os papéis que precisava. Virei até motivo de gozação de umas amigas que me chamavam de coração de papel. Fui me revoltando com tudo, não me conformava. Como eu achava que nunca ia conseguir um doador e que iria morrer de qualquer jeito, resolvi acabar com tanto sofrimento, tentei o suicídio. Fiquei vários dias em coma, mas voltei a si. Depois que isso aconteceu, com a ajuda de uma amiga que conheci no hospital, comecei a me conformar com o que estava acontecendo. Ela se chamava Regina, já faz seis anos que ela faleceu. Ela foi a única amiga que eu tive até hoje. Ela me ensinou a gostar da vida e a ter esperanças, acreditar na força de Deus. O tempo foi passando e aos 15 anos de idade acabou o meu sofrimento.
No dia 24 de dezembro de 1991, consegui um doador. Foi o melhor presente de Natal que eu poderia ter ganho. Tive um pós-operatório tranqüilo, a minha recuperação foi rápida.
Fiquei 23 dias internada. Daquele dia em diante começou um vida nova. Voltei a ter uma vida normal, terminei meus estudos, voltei a trabalhar com a minha irmã. Sabe que é difícil uma pessoa transplantada conseguir emprego?
Hoje aos 23 anos de idade, sou casada e no dia 02 de julho de 1998 realizei o meu maior sonho, ser mãe.
O que era um tabu para os médicos eu consegui realizar. Minha filha tem oito meses, é linda, perfeita e com muita saúde. Ela se chama Laís, e é o verdadeiro símbolo da vitória da vida. Minha relação com a família do doador não é muito boa, nos encontramos apenas duas vezes e não me trataram muito bem.
Essa é a minha história.
Adriana