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Da sorte em seu exato sentido

Hoje é dia 15 de fevereiro de 1999, passados 18 dias, uma sensação de coração aliviado e de grande satisfação me invade, em razão de uma bem sucedida cirurgia de transplante renal, à qual foi minha mãe submetida e que, eu tive a "sorte" de poder doar-lhe um rim.

Não há que ser desconsiderado, o fato de que toda a nossa caminhada, desde o princípio, ao ser diagnosticado a necessidade de se fazer um transplante, tenha sido por demais desgastante emocionalmente, para todos nós.

Vários exames foram realizados em uma sequência e a cada qual, eu rezava muito, sempre dirigindo esforços no sentido de poder realizar os da etapa seguinte.

Sentimentos como incerteza e ansiedade, se revelavam com mais intensidade a cada dia, no desenrolar de aproximadamente cinco meses.

O resultado por fim, foi imensamente feliz para nós, chegando mesmo a superar as nossas melhores expectativas. Hoje, após a cirurgia, minha mãe pode ser considerada uma nova pessoa, em perfeitas condições de trilhar um novo caminho, que se apresenta ainda mais iluminado à sua frente. É por isso, que me sinto uma pessoa de "sorte", abençoada por Deus, por ter contribuído para que minha mãe, tivesse uma nova oportunidade de vida.

A princípio, pode até mesmo ser interpretada como cínica a afirmação, de me considerar uma pessoa de "sorte" por ter doado um órgão, no entanto isto de forma alguma é verdade e por que não o é? Não o é, porque a realidade de nosso país merece apenas e tão somente uma conceituação que se esgota em uma única palavra, que muito bem a abarca e define integralmente DESUMANIDADE a qual, de maneira nefasta, é dispensada ao sem número de pessoas, que se encontram necessitadas de um órgão, para poder ter ao menos uma esperança de vida.

Não há que se estabelecer um paralelo com outros países, onde a situação difere, pois naqueles se considera e respeita não apenas a qualidade, mas também a vida das pessoas.

Temos sim, que nos ater à nossa realidade, onde a desinformação impera indistintamente e tentar mudar este quadro desolador.

Não tenho como aceitar, ou mesmo considerar justo, que outras tantas famílias, não possam desfrutar desta sensação de alívio e de alegria, que experimentamos hoje, em razão de tanto descaso, primordialmente derivado, reitero, da falta de informação das pessoas no atinente à esse assunto.

Se o contexto fosse outro, me atrevo a afirmar, com toda convicção, que muitas vidas teriam sido salvas e que outras mais, no futuro teriam o mesmo destino.

Por ter vivenciado pessoalmente esta emoção e por não querer que esta situação perdure, me vejo com ânimo e disposição, para da maneira que for possível, de alguma forma contribuir com o trabalho da ADOTE. Esta inclinação teve origem, em período que antecedeu a cirurgia, ocasião em que, tive a feliz oportunidade de conhecer o Francisco e a Zita, membros da ADOTE, que mesmo sem me conhecer, disponibilizaram o melhor que um ser humano pode oferecer, que é o amor ao próximo, a solidariedade.

Não tenho como esconder a emoção ao falar destas duas pessoas, as quais, a vida em um gesto sublime, se encarregou de aproximar e que a cada atitude, revelam os sentimentos mais puros e elevados e não o fazem por dever, mas sim por manifesto amor!

Sem dúvida, a ADOTE, tem um papel de destaque na história da minha vida e o exemplo apresentado pelo Francisco e pela Zita, propiciaram uma revisão, na minha escala de valores e me impulsionam, no sentido de também apresentar a minha contribuição.

Alexandra

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