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"Poucos dias de transplantado, sou outra pessoa, deito e posso dormir"

Minha história vem se arrastando há quatorze anos quando, em agosto de 1985, tive o primeiro enfarto agudo do miocárdio. Daí para frente vinha me tratando, mas já não era a mesma pessoa. Tinha falta de ar, dor no peito e tonturas que só um cardíaco sabe o sofrimento.

Até que em 1992 tive o segundo enfarto. Daí em diante, tudo começou a piorar com sérios problemas de complicações cardíacas, como aumento do coração, água nos pulmões, pneumonia, falta de ar e dores no peito. 97, 98, foi se agravando a minha doença.

Já não podia caminhar, muito menos subir qualquer lomba. Minha vida era muito restrita, saia pouco. A maior parte do tempo era entre o quarto e a sala e caminhava apenas dentro de casa.

Em setembro de 1997, tive mais uma pneumonia. Na época, meu médico era o Dr. Alfeu que atendia-me no Hospital Divina Providência. Estive baixado 14 dias e pedi uma providência para ele porque eu já não agüentava mais sofrer. Já não podia mais deitar para dormir, tinha que dormir sentado, o corpo queria descansar mas a falta de ar não deixava. Sentia-me muito cansado.

Do hospital Divina fui para o Instituto de Cardiologia onde iria fazer três a quatro pontes de safena, mas já era tarde. Os médicos chegaram a conclusão que não daria para fazer pontes de safena porque seria muito perigoso e não iria adiantar nada, a alternativa era o transplante.

Entrei para a fila de transplantes em setembro de 1998, onde esperei por um coração até o dia 21 de dezembro, aproximadamente quatro meses.

Contei com a solidariedade e a dor da família enlutada que tiveram um ato de amor doando os órgãos de seu filho para salvar a vida de quem espera uma doação. Refiro-me a família do menino Mateus que teve morte cerebral depois de um acidente de trânsito.

A minha experiência com o transplante: é muito difícil a espera por um órgão. Nós que esperamos, não sabemos o dia, a hora. Quando? A espera me bateu o pavor e a depressão, nervosismo e tive que ter palestras com uma psicóloga. Mas com a fé em Deus e o apoio da minha família, dos meus filhos, superei as dificuldades até que chegou do dia do transplante. Recordo-me como se fosse agora os dias 20 para 21 de dezembro. Entrei na sala de cirurgia bem consciente do que eu queria e com muita vontade de viver. Após três horas do transplante já estava acordado conversando, com muita fé e esperança de uma nova vida que Deus me deu e fiquei eternamente agradecido a família do menino Mateus.

Minha esperança de obter uma melhor qualidade de vida após o transplante já é uma realidade após esses poucos dias de transplantado. Sou outra pessoa, não sinto falta de ar, deito e posso dormir, caminho sem dor no peito, minha recuperação é das mais rápidas possível e estou muito feliz por ter recebido um presente de vida através de um órgão doado por uma família maravilhosa. Este é o meu relato para quem ler se conscientizar que doar um órgão é um ato de amor e esperança de uma nova vida para quem espera por uma doação

Antônio Adão Soares

16/03/1999

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