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A gente sempre pensa que com a gente não vai acontecer nada

A dor é palpável no depoimento de Carla Gautério, que no dia 16 de abril de 1999 perdeu o marido Alamir. Ele sofria de uma infecção decorrente de tuberculose e precisava receber novo pulmão. Aos 24 anos, ela está viúva e ainda não sabe se terá forças para criar sozinha os dois filhos do casal, de oito e quatro anos. (Publicação autorizada pelo jornal Zero Hora, foto Adriana Franciosi/ZH 28/05/98)

"O sofrimento é terrível. O Alamir tinha 35 anos e todas chances de ficar bom. Em junho do ano passado, ficamos sabendo que esta era a única alternativa. Saímos de São José do Norte e nos mudamos para Porto Alegre. Entramos na lista de espera e ficamos certos de que iríamos conseguir. Não saíamos de perto do telefone porque poderiam ligar do hospital chamando para a operação. Não sei se o que ele passou nestes oito meses de espera foi vida. Sem poder comer, tomar banho, sair. Cuidando para não ter infecção, mas sem conseguir controlar a doença. Tentamos tudo com as mãos amarradas, porque só dependíamos do doador. É muito triste ver uma pessoa sofrer e saber que a única solução não está a seu alcance. A angústia da espera é muito triste para todos. Além da dor física, há o sofrimento mental também, imaginando que, se não acontecer o transplante, vem a morte. As duas únicas chances de cirurgia chegaram no fim, quando ele passou 40 dias internado. Mas os órgãos não eram compatíveis.

As crianças passaram a perder o Alamir no momento em que ele começou a ficar doente e não podia brincar. Eles assistiam ao sofrimento do pai ligado no oxigênio. A doença foi levando o Alamir devagar, cada vez mais. O Artur me disse esses dias que não queria que ninguém morresse e estava com saudades do pai. Pretendo criar as crianças. Não sei se vou conseguir porque não é fácil. Fico descansada porque eu e os médicos fizemos tudo o que podíamos. Só não quero saber se ele teve alguma chance de ter o transplante e não o fez por falta de doação ou por outros problemas. É uma dor que eu sinto. Dói demais.

O Alamir era muito jovem. Tínhamos muitos planos e nunca imaginamos que isso iria acontecer. A gente sempre pensa que com a gente não vai acontecer nada. Quem faz o transplante ganha uma vida nova. Vi os transplantados renascerem. Espero que as pessoas não tenham medo de doar os órgãos. Estar na fila é terrível. Ainda tem muita gente esperando."

Carla Gautério

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