Como médicos intensivistas, ao discutirmos sobre temas como morte encefálica, doação e transplantes, visando ampliar nossa participação, cabe-nos indagar: ainda existem problemas no tocante à doação/transplantes no Brasil? Hoje? Obviamente, a resposta só pode ser sim. E onde localizam-se estes problemas? Nas UTIs. Exatamente onde? Nos médicos intensivistas! E por quê?
Nos últimos dois anos, mas certamente há mais tempo, nós, intensivistas, temos discutido a morte encefálica (ME) tocados por nossa realidade e pela ampla difusão do tema na mídia em geral.
Apesar de em pouco ou nada atuarmos como sujeitos naqueles cenários, temos a consciência de nossa participação, dificuldades, erros e acertos em nosso trabalho, e de nosso compromisso como médicos e cidadãos.
Por isto, objetivando um projeto de longo prazo, desenhado e composto com nossas verdades e perspectivas – viável para tornar-se realidade –, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira - AMIB reuniu-se em São Paulo com representantes do CFM e da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos - ABTO, visando a uma parceria.
Inicialmente, tentou-se descobrir o porquê da baixa participação dos médicos intensivistas. A AMIB, em inquérito nacional, teve como resposta que 53% dos médicos intensivistas consideraram a lei de "doação presumida" melhor que a lei de "doação consentida". Mesmo assim não foram encontradas evidências claras da modificação do nosso comportamento frente aos potenciais doadores – o processo continuou lento, errático, aleatório, sem uma inflexão, nova ou expressiva, nas doações e transplantes conseguidos nas UTIs.
A leitura que hoje fazemos do baixo envolvimento dos intensivistas nesse processo é de que esta alienação tem bases recentes e até fáceis de entender: de modo geral, os intensivistas enfrentam esse tema em conflito. E por quê?
Primeiro, porque a família está em sofrimento: a perda irreparável; os eventos trágicos do desenlace; a dificuldade em entender a morte como processo; as dúvidas e sentimentos de culpa próprios das famílias.
Segundo, porque o médico intensivista também vivência essa atmosfera: a negação da perda, da morte e do morrer; as dúvidas técnicas e humanas inerentes ao processo e suas múltiplas fases de diagnóstico; a difícil tarefa de comunicar perdas, ser empático e pedir o que parece impossível quando se conhece a família há cinco minutos; o constrangimento; as incertezas; o distanciamento das famílias, da enfermagem, dos colegas menos familiarizados com o diagnóstico de ME, próprio do conhecer e interpretar, próprio de um sistema que ainda privilegia mais ao transplante e menos à doação, à captação.
Terceiro, porque ainda assim muitos processos são levados a cabo. Muitos potenciais doadores são identificados, sustentados. Muitas famílias doam. Muitos transplantes deram certo. Mas, quando isto acontece, quem fica sabendo do fundamental na identificação dos potenciais doadores e sua sustentação? Quem fica sabendo do fundamental naquela relação com a família e que lhes deu coragem para proceder a doação? Quem, do serviço ou equipe, recebe um relatório qualificando os procedimentos realizados, os transplantes possíveis? E as taxas de sucesso a longo prazo? E de como os serviços têm retorno do investimento prestado?
São muitas as perguntas a que precisamos responder. Neste ponto, a pretensão do novo projeto satisfaz nossas ambições iniciais, trazendo iniciativas nos âmbitos nacional, estadual, municipal e institucional.
Em nível nacional, comporta as seguintes propostas:
Em nível estadual:
Em nível municipal:
Em nível das instituições de saúde:
Há muito por fazer, em fases articuladas e em complementaridade, num projeto de longo curso. Em seu conjunto, acreditamos, deve resultar uma melhora da participação de todos nós, em especial do médico intensivista, acelerando o processo doação-transplantes. Quem sabe, ao corrigirmos tantos "porquês", possamos um dia "saber pensar" que, é claro, para nós existe, sim, vida após a morte.
Jairo B. Othero
Médico intensivista e presidente
da Comissão Nacional de Ética Médica da AMIB
Publicado em http://www.cfm.org.br