Eu lhes proponho uma reflexão sobre o lugar dos senhores, não apenas no papel social que ocupam, de médicos, enfermeiros, ou não, salvadores de vidas ou de senhores da morte. Refletir num lugar simples: o de simples seres humanos, representantes da sociedade e, como tal, como qualquer humano, estaremos no lugar que o destino nos reserva: doador? Ou receptor?
Como qualquer moeda, esta tem dois lados. Em qualquer lados destes o homem está diante da morte. A morte que nos convoca ao "nosso dever de seres vivos" - tornar a vida apenas suportável - e nem sequer nos pede para que realizemos nossa felicidade.
As pessoas que estão numa lista de espera - receptores possíveis - estão impotentes diante deste único dever, o de tornar a vida suportável, pois quase não conseguem suportar a vida pelo sofrimento físico e psíquico aos quais estão submetidas. São pessoas que perderam a ilusão. Nelas a ilusão perdeu todo seu valor de tornar a vida melhor, pois a vida lhes fica quase insuportável.
"Não há nada mais custoso do que a doença, salvo a estupidez", segundo Freud.
As pessoas que se colocam como doadores possíveis buscam transcender a morte, buscam a quitação impossível em vida de uma dívida, dívida esta contraída pelo desejo de morte do pai. Deste modo, no sentimento de culpa estão enlaçados amor e desejo de morte. Assim, pode-se entender melhor porque é comun ouvir-se que a família ao fazer a doação reconforta-se. A dívida está paga. Há um sentido para a morte.
E a notificação reconforta? Ou não? Será que neste caso, não haveria quitação da dívida do pai, pois o corpo é de outrem?
Lúcia Elber
Psicóloga, voluntária da ADOTE em Porto Alegre, RS.