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Bater em mim um coração novo.

Eu sou Vanessa, tenho 18 anos e sou transplantada de coração há seis meses e meio, pelo Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. Na foto ao lado estou com os meus pais, José e Dilva.

Desde pequena sempre levei uma vida normal: corria, brincava, dançava, fazia tudo sem sentir nada de anormal no coração. Porém, aos 13 anos, em janeiro de 1996, comecei a sentir sensações diferentes ao andar de bicicleta e parecia ser no coração, mas eu nem imaginava. Minha mãe me levou a uma clínica. O médico fez um eletrocardiograma e disse que era apenas um problema hormonal, mas minha mãe não se convenceu e me levou ao Hospital dos Bombeiros, no Campinho, onde fiz eletro e ecocardiograma e o médico percebeu alguma anormalidade e falou que deveríamos buscar um especialista.

Comecei a partir daí a me tratar como a Dra. Rosa Célia Pimentel Barbosa, diretora do infantil do Pró-Cardíaco, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Foi diagnosticada uma displasia arritmogênica do ventrículo direito.

Nos dois primeiros anos da doença sentia cansaço ao fazer grandes esforços como longas caminhadas, ao correr, ao dançar ou ao subir escadas. Entretanto, piorei muito a partir do segundo semestre de 1998. No reveillon de 98 para 99 comecei a sentir náuseas e, desde então, passei a apresentar vômitos praticamente todos os dias e várias vezes ao dia. Não podia ver e nem sentir cheiro de comida que passava mal com enjôos e vômitos. Comece a emagrecer e, às vezes, precisava ficar no soro.

Sentia tanto cansaço, falta de ar, dor torácica (dizem que coração não dói, pois para mim doía) que ficava deitada quase o dia inteiro. Mal conseguia andar do portão para dentro de casa. Só podia sair de carro, pois não conseguia subir ou descer minha rua. E justamente no ano em que eu faria vestibular! Fiquei completamente desestimulada. Apenas concluí o terceiro ano e com a ajuda da diretora que sabia dos meus problemas.

Fiquei muito deprimida, não via alegria em nada, não via sentido na vida, tinha muita insônia (esse foi o meu maior sofrimento), faltava sempre ao Colégio e ia sempre a São Paulo, pois quando a minha doutora viu meu quadro de piora achou que eu deveria ser avaliada pela equipe de transplantes do Incor.

Comecei a me tratar com o Dr. Fernando Bacal, por quem sinto um carinho super especial, como se fosse da minha família.

Fui internada em dezembro de 1999 no Incor, onde foi feita uma mudança nos medicamentos e apresentei uma melhora até março de 2000. Continuei sentindo cansaço e enjôos. Foi uma melhora pequena.

Em abril comecei a ficar muito inchada nas pernas, na barriga, no rosto e no pescoço. Em me sentia horrível, me olhava no espelho e me sentia deformada. Então, novamente, o Dr. Bacal me internou para fazer exames e ver se eu deveria entrar para a fila de transplantes.

Fiquei internada todo o mês de maio. Passei a ter uma restrição líquida de 800 ml ao dia e também de apenas dois gramas de sal. Em duas semanas perdi nove quilos de líquido retido.

Através dos exames, descobriu-se que eu estava com dois coágulos no ventrículo esquerdo e passei a tomar injeções anticoagulantes (Heparina). Entrei para a fila do transplante na metade do mês de maio.

Recebi alta no dia dois de junho e, para minha surpresa, no dia seguinte fui chamada ao hospital pois havia aparecido um possível doador. Fiz o transplante. Não tive nenhuma rejeição. Fiquei uma semana na UTI, mais uma semana na enfermagem e recebi alta. Foi uma recuperação ótima, surpreendente para todos. Para mim foi um verdadeiro milagre.

Ouvi um comentário entre os médicos dizendo que foi o primeiro caso de transplantes de coração com Displasia Arritmogênica do Ventrículo Direito no Brasil.

Eu agradeço infinitamente a Deus por haver colocado almas tão iluminadas no meu caminho: à Dra Rosa por ter me ajudado tanto, por continuar cuidando de mim e por ter sido graças a ela que eu consegui chegar até o Incor; ao doador, que tinha 22 anos e entrou no reino de Deus praticando a lei de amor que Cristo nos ensinou; à família do doador, porque num momento de tanta dor pela perda de um ente querido se preocupou em ajudar outras pessoas que estavam vivas e sofrendo; ao Dr. Alfredo Fiorelli, o cirurgião que me operou, por salvar a minha vida e a de tantas outras pessoas e por ter feito bater em mim um coração novo com as mãos abençoadas que Deus lhe deu; a todos os enfermeiros e enfermeiras, residentes e funcionários do Incor que tanto me ajudaram, com carinho ou simples gestos de atenção ou preocupação. E agradeço muito ao Dr. Bacal - com quem estou na foto ao lado e por quem o meu coração bate e baterá, um espírito de gratidão constante e eternamente - por ser tão atencioso, por ter me dado saúde novamente. Por ter me salvado!!!. Agradeço muito a minha família e amigos e, principalmente, à minha MÃE, pela dedicação inigualável, palavras de conforto, sorriso e bondade.

Graças a essas pessoas, agora eu levo uma vida normal. Ando de bicicleta, corro, danço e não sinto nada no coração. Agora tenho muita saúde e energia. Não consigo mais ficar parada. Não tenho mais insônia, nem depressão. Ano que vem farei vestibular e creio que em 2002 estarei na faculdade de Psicologia.

A felicidade que sinto não tem preço. Sinto-me uma nova pessoa!

Vanessa

Rio de Janeiro, dezembro de 2000.

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