Enquanto acadêmicas do curso de Psicologia da Universidade de Passo Fundo, no ano de 1997, vivenciamos a instituição legal da doação presumida de órgãos. Esta questão mobilizou nosso país e nos despertou para uma pesquisa através da qual investigamos alunos universitários na tentativa de compreender as idéias e concepções que dão sentido à posição quanto a ser ou não doador.
Contudo, observando a grande relevância social do tema, pareceu-nos que o mesmo merecia um aprofundamento. Dessa forma, partindo de um referencial psicanalítico, demos início a investigações sobre mães que estiveram frente à decisão de autorizar ou não a retirada de órgãos de seus filhos. Apresentaremos reumidamente um depoimento de uma mãe que disse SIM à doação.
A mãe relata: ...a gente não entendia nada de medicina, nem sobre o cérebro. Pensávamos que o principal órgão era o coração e que o mesmo sem o cérebro a criança poderia sobreviver, mesmo que ficasse com algumas deficiências. Como mãe tinha esperanças de que ele iria sobreviver, pois continuava respirando através de aparelhos.
Após esclarecimentos médicos a mãe compreendeu que a Morte Encefálica era irreversível, o fim da vida.
Impressiona-nos observar que a mãe, apesar de ter perdido seu filho como ser total, conforta-se ao saber que seus órgãos sobrevivem.
...ele morreu, mas algumas partes dele sobreviveram. Se as mães que chegarem ao ponto que a gente chegou, se elas tiverem dúvidas que a retirada de órgãos irão matar seus filhos, não é verdade, pois existem vários exames médicos que são feitos para comprovar a Morte Encefálica. Eu não sei de onde vem tanta força para isso que a gente tem enfrentado, para essas dificuldades. Mas, nesse momento, a gente se sente até superior. Eu me senti maior, uma coisa de generosidade. Tinha que ser feito. Às vezes vem aquela tristeza e ao mesmo tempo vem aquela alegria de que alguém está sobrevivendo.
Este é um depoimento comovente! Através dele, podemos encontrar algumas possibilidade de compreensão do sentido que teve, para esta mãe, a doação de órgãos do filho. Um sentimento de solidariedade, de amor ao próximo, de identificação com a mãe que está recebendo e, entre outras coisas, a dor de perder o filho e a conformação em saber que seus órgãos possibilitaram a vida a outras pessoas.
Eliana Missel e Fabíola Giacomini
Voluntárias da ADOTE em Passo Fundo, RS.