Penso que este relato tem duas caras. Até meus vinte e sete anos fui mãe de três filhos: Mercedes, Rosário e Alejandro, que nasceram sãos, se criaram sãos a não ser por um simples resfriado ou dores de garganta, alguns cortes e machucados próprios de suas brincadeiras. Quando meus filhos tinham sete, seis e dois anos e eu vinte e oito fiquei grávida de novo. Tive uma ótima gravidez, igual as outras, até que meu quarto filho nasceu. Não foi como os anteriores. Gonzalo já nasceu com morte cerebral. Seu corpo estava perfeito, seus órgãos funcionavam, mas vivia graças a um respirador artificial. Os médicos nos pediram permissão para desconecta-lo e meu marido e eu, rodeados pela equipe responsável, demos a autorização. Pensei nesse momento que isso não estava acontecendo comigo; isto só acontece com os outros. Eu que sempre fui contra o aborto, não podia entender semelhante situação e penso que, se naquele momento, alguém tivesse me pedido que autorizasse uma doação de órgãos teria negado categoricamente.
Mas como esse relato tem duas caras, meus filhos foram crescendo e superamos em parte aquela perda. Aos dezenove anos, porém, milha filha Rosário, uma linda moça loira de grandes olhos azuis, disse-me que não estava enxergando bem. Decidiu consultar um oftalmologista pensando que seria uma consulta normal e que óculos resolveria seu problema. Mas não foi nada normal e os resultados indicavam que ela tinha uma enfermidade congênita, ceratocone, que normalmente, segundo os médico, aparece aos 40-45 anos. Só que nela começou aos dezenove e em dois anos foi crescendo de forma alarmante. Essa doença só tem uma solução: transplante de córnea. Voltei a pensar o mesmo de quando o Gonzalo nasceu. Isto não pode estar acontecendo conosco, mas me dei conta que pode acontecer com qualquer um e em qualquer momento. Compreendi, então, a importância da doação de órgão. Que cada um de nós deve se aprofundar neste assunto e pensar que dar a vida é o mais belo que existe.
Tive que passar pelas duas situações para compreender este problema. Por isso escrevi este testemunho, na esperança de que as pessoas se conscientizem antes que tenham que passar pela mesma dor.
Maria Cristina Martinez
Voluntária da ADOTE em Pelotas, RS.