Em 1982 numa consulta a um oftalmologista em Pau dos Ferros, cidade do Interior do Rio Grande do Norte, fui aconselhado a procurar um médico em Natal, pois ele desconfiava de algum problema na minha visão que só um exame mais acurado poderia confirmar.
Fui à Natal fazer uma consulta ao Dr. Carlos Alexandre, indicado pelo médico anterior, que detectou ceratocone, um problema degenerativo nas córneas, que com o tempo, sem tratamento, é claro, levaria a cegueira.
Perguntado sobre o tipo de tratamento para o problema, o Dr. Carlos Alexandre informou seria transplante, mas era uma terapia em fase inicial. A primeira providência seria o uso de lentes de contato "duras" para estancar o avanço da doença, que deixa as córneas em forma de cone. Não havendo sucesso nesse procedimento o transplante das córneas seria necessário.
Hoje, passados quase dezoito anos, não me lembro bem qual foi a reação diante da alternativa do transplante. Sei que assimilei bem a dimensão do problema, pois no mesmo ano, creio, tinha acontecido uma grande campanha pela doação de córneas na TV liderada pelos "Os Trapalhões"
Logo comecei o tratamento com as tais lentes de contato 'duras'. No período de adaptação às lentes, fui com meu irmão que morava em Natal à João Pessoa passar um final de semana, onde residia um tio. Este, quando soube do motivo da minha ida a Natal, nos informou de um oftalmologista local que tinha sido notícia a nível nacional, mais precisamente na revista 'Veja'. Convidou- me, então, para uma consulta ao Dr. Osvaldo Travassos de Medeiros.
Assim fizemos. Em novembro de 1982 fomos ao Dr. Osvaldo que confirmou o diagnóstico do Dr. Carlos Alexandre, discordando, porém, do uso das lentes de contato.
Questionando sobre o tempo de espera na fila do transplante de córneas, o Dr. Osvaldo nos informou que seria de mais ou menos trinta dias, isso devido a um grande esforço de profissionais junto a familiares de pessoas falecidas. Isso me motivou a mudar de médico, pois o Dr. Carlos Alexandre havia dito que estava com uma paciente esperando há seis meses por uma doação. É bom ressaltar que naquela época não havia a fila única de receptores de órgãos e tecidos.
Em agosto de 1983 fiz o transplante do olho esquerdo, e um ano depois o do olho direito. Em ambos, da entrega dos exames de risco cirúrgico até a realização das cirurgias, esperei apenas vinte e dois dias. A recuperação das cirurgias e da visão foram excelentes, o que me faz depois desse tempo, ter uma vida totalmente normal, sem a necessidade do uso de qualquer medicação.
Do surgimento da doença ao final do tratamento, tudo aconteceu de maneira natural e tranqüila. O grande trauma mesmo era estar fora de casa sem meus pais para resolverem algumas coisas, pois tinha apenas dezessete anos. Sei que não é assim para todas as pessoas que precisam de um transplante. Tanto pela dimensão da doença quanto pela falta de doadores ainda apegados a valores questionáveis, mas respeitáveis, é claro. A única maneira de tudo isso ser pelo menos amenizado, é a superação desses valores.
Eugênio Marcel Soares
35 anos, Empregado da Caixa Econômica Federal
em Pau dos Ferros, RN.