Perdi meu filho em um acidente na banheira, em casa, no dia 31 de maio passado (2001). Ele tinha um ano e três meses. Vítor caiu, teve edema cerebral e hemorragia no pulmão. Não teve fraturas. Foi uma estupidez. Levamos ele às pressas para o pronto-socorro, já inconsciente. No início, tínhamos esperanças de vê-lo melhorar, mas ele foi piorando e não voltou a acordar.
Quatro dias depois, o médico diagnosticou a morte encefálica. Quando ouvi essa expressão, automaticamente pensei em doação. Falei com a pediatra e perguntei se poderíamos doar os órgãos. Eu não poderia fazer mais nada por ele. Queria pensar que aquele acidente tão bobo não tinha sido em vão. Tomar esta atitude me fez sentir melhor.
Fizeram diversos exames, e a retirada dos órgãos só começou no dia seguinte. Foi estressante, mas era tudo por precaução, para confirmar o estado dele.
Ainda sofro muito, principalmente quando vejo as fotos dele, mas procuro me distrair. Brinco com a Helena, gêmea de Vítor, e tenho me envolvido em campanhas para divulgar a importância da doação de órgãos. A dor não termina nunca, mas saber que há pessoas vivendo melhor por causa disso me alivia bastante. Se eu não tivesse doado, sentiria que tudo foi inútil.
Nunca tinha perdido alguém, para mim a doação foi reconfortante. Uma menina de dois anos recebeu o fígado e um rapaz de 35 anos, doente desde os 17, está com os rins. O coração não pôde ser aproveitado porque a única criança na lista compatível com ele morreu na tarde da doação.
Eu me coloco no lugar dessas mães. Passei alguns dias no hospital com meu filho, imagino o sofrimento das mães que esperam anos por um transplante. As pessoas têm de se colocar no lugar do próximo. Se um transplante de cérebro pudesse ter salvo meu filho, eu desejaria ter encontrado um doador.
Paula Machado Gadea
30 anos, professora de inglês, de Pelotas,
abranda a dor da perda do filho Vítor,
gêmeo de Helena (em seus braços na foto),
com o alento de permitir a vida
a uma menina de dois anos e a um homem de 35.