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Nada mais judaico que salvar uma vida

Não é verdade que os judeus não permitem a doação de órgãos. Entretanto, tal procedimento deve ser guiado por algumas diretrizes. Como o judeu vê no corpo humano uma inigualável santidade pelo fato de nela haver repousado uma alma divina, tomamos certos cuidados para evitar sua banalização. A doação de órgãos é permitida desde que o receptor os receba imediatamente e seja conhecida sua identidade. Isso porque, doando-se os órgãos a um banco de órgãos, teme-se que os mesmo não sejam aproveitados. Desse modo, seriam descartados de forma imprópria e não enterrados conforme prescrito pela Lei Judaica. A identidade do receptor é a garantia de que os órgãos foram de fato utilizados. Ao mesmo tempo, há uma grande discussão rabínica em torno do que é considerado como morte. A morte encefálica não é aceita por todas as correntes como o fim da existência humana. Daí a proibição da doação neste caso. Não pelo fato de o judeu não poder ajudar outras pessoas (o que é, no mínimo, absurdo de se afirmar), mas pelo risco de se infringir a Lei Judaica e retirar um órgão de alguém que, pelo menos legalmente, ainda é considerado vivo, o que seria equivalente, tradicionalmente falando, ao homicídio. Para ser decretada a morte de forma unânime por todas as correntes ideológicas judaicas, é necessária a parada cardíaca e apnéia por no mínimo dez minutos, o que, infelizmente, inutiliza os órgãos para a doação. Ressalto novamente: o judeu não somente pode como deve doar órgãos, mas desde que as regras sejam cumpridas.

Reafirmo as palavras do Rabino Henry I. Sobel, meu mentor e grande amigo: apoio a decisão da família de doar os órgãos, como apoio e incentivo aos judeus de minha comunidade que também o façam, pois nada mais judaico que salvar uma vida, dando aquilo que não mais nos serve àqueles que darão continuidade a sua existência. Entretanto, qualquer parte do corpo humano não é apenas uma pedaço de carne a ser transportado de um lugar ao outro. As normas judaicas supra-mencionadas visam a sacralização do homem.

Shabat Shalom Prof. Sami Goldstein

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