Tudo começou com uma simples ausculta, quando aos 19(dezenove) anos fui ao ginecologista e este detectou, na ocasião, um "sopro cardíaco". Recomendou à minha mãe levar-me ao Hospital de Messejana, aqui em Fortaleza/CE, para investigação do caso. No momento, foi ventilada a possibilidade de uma cirurgia, ficando só descartada após o meu primeiro cateterismo, no qual foi diagnosticado "estenose subaórtica hipertrófica idiopática". Para mim, aquilo tudo era uma bomba estourando ininterruptamente meus ouvidos, pois, até então, gozara de boa saúde em toda a minha infância e adolescência. Sempre fui uma pessoa muito ativa, praticava vôlei no colégio, educação física, dança e outra atividades próprias da idade. Daquela época até o surgimento da Miocardiopatia Dilatada Severa, ocasionando a Insuficiência Cardíaca Congestiva-ICC, passaram-se aproximadamente uns 23(vinte e três) anos, sem que eu apresentasse sintomas do defeito congênito. O problema aparecia apenas nos exames de rotina (eletrocardiograma, eco e outros). É tanto que noivei, casei, passei em 4(quatro) concursos públicos, tive 2(dois) filhos em partos normais, passei no vestibular para Direito, me divorciei, casei novamente, sempre com muita garra e dinamismo. Tomava diariamente 80 mg da medicação Propanolol.
Nunca imaginara a tamanha gravidade dessa doença, quando apareceu há uns 5(cinco) anos, a primeira crise de edema pulmonar. Naquele dia foi angustiante, achava que iria morrer longe do meu filho mais velho e do meu marido. O meu filho mais novo, aflitíssimo, teve que chamar um vizinho no condomínio para levar-me ao hospital mais próximo, achando que não ia "dar tempo". Lembro-me que procurava desesperadamente por oxigênio, tossia e babava. Dessa crise em diante, comecei gradativamente a entrar em depressão, a ter medo de ficar sozinha, deixei de caminhar, fiquei em pânico... Até o transplante, tive de 18(dezoito) a 20(vinte) crises dessas, cada qual pior que a outra. Acredito que o fator psicológico/emocional tenha contribuído bastante para desencadeá-las, chegando a virar um círculo vicioso na minha vida!
O meu sofrimento ali começara. A minha vida baixou mais de 50% em qualidade. Perdi o gosto de viver. Mesmo assim, ainda conseguia trabalhar e a ter uma certa vida social. Trabalhava por amor à profissão e por terapia, pois lido com leitura e escrita no Serviço Público, mas não porque pudesse. Uma vez, quando estava sendo periciada pela Junta Médica de Pessoal da repartição, tive mais uma crise de edema, indo direto para a emergência do hospital mais próximo. Engraçado, edema em mim era tudo interno, externamente nunca tive edema, principalmente nas pernas ou nos tornozelos.
Além dos episódios acima, também corri o risco de perder a minha perna esquerda por causa de um coágulo (fui operada às pressas), convivi um certo tempo com outro coágulo no coração, tive muitas dores, cansaço permanente, muita falta de ar, insônia. A depressão apoderou-se de mim profundamente, fiquei com uma sensação de impotência e inutilidade (eu, uma pessoa tão ativa e independente), faltou-me perspectiva na vida, não tinha mais ânimo para continuar... O ano de 2001 foi o pior e o melhor ano da minha existência. Os meses de abril a novembro, representavam a fase pior do sofrimento, pois a ICC em grau já bem avançado, apresentava um quadro de descompensação contínua, onde as medicações, em número de 11(onze), com antidepressivo ou ansiolítico e reposição de cálcio e potássio, não surtiam mais efeito. Vivia internada em UTI. No mês de agosto, foi terrível para mim, quando tive que aceitar a idéia de sentar-me, pela primeira vez, em uma cadeira de rodas para poder me deslocar para as atividades do dia-a-dia. Não tomava mais banho, fui obrigada a cortar os meus longos cabelos que iam até a cintura, não escovava mais os dentes, não conseguia me pôr de pé, prostrada em uma cama, sempre carregada nos braços do meu filho, fiquei no "fundo do poço"... Às vezes, faltava-me a fé em Deus, em outras, a fé retornava com força e esperança. No fundo, no fundo, eu via a "luz no fim do túnel" e acreditava que Papai Noel (virei uma criança) iria trazer um coração novo para mim, no Natal de 2001. O que aconteceu!
No momento do meu transplante, eu estava internada na UTI Coronariana do Hospital São Raimundo (ex-Casa de Saúde e Maternidade São Raimundo), com a última crise de edema agudo de pulmão, fragilizada, física e mentalmente, mas com uma certa força espiritual.
Minha cirurgia foi feita no já citado Hospital de Messejana, através do Sistema Único de Saúde-SUS, pelo médico Dr. Juan Alberto Cosquillo Mejia, tendo como Diretor da Comissão de Transplantes, o médico Dr. João David de Souza Neto.
Hoje, após oito meses, não existe mais nenhum resquício da depressão anterior. Pelo contrário, como a minha qualidade de vida melhorou em 99,9%, a minha auto-estima subiu, estou sempre com vontade de estar bonita, arrumada e cheirosa. Caminho diariamente durante 1(uma) hora, danço muito em casa, moro no 3º andar, subindo todos os dias 6(seis) lances de escada, faço todas as atividades domésticas, me desloco sozinha para onde quer que seja, voltei a ser a mulher independente e trabalhadora de antes da ICC, e ninguém acredita quando falo que troquei literalmente de coração. Só preciso esperar até o ano de 2003 para o retorno ao trabalho e aos estudos de Direito. Por enquanto, vou fazendo a minha parte, pois a minha missão agora é tentar conscientizar as pessoas quanto a questão da doação de órgãos e tecidos. Comecei construindo um site na Internet, distribuindo panfletos e fazendo campanha "boca/boca", em qualquer local, enfim, espalhando as rosas que saem de dentro do meu coração novo. Obrigada pela atenção!
Um beijo!
Rita Moura
Visite meu site:
http://sites.uol.com.br/ritinhamoura/