O Estado de Goiás está sendo personagem de um estranho paradoxo. Ao mesmo tempo em se coloca entre os primeiros no ranking nacional de captação de doadores, segundo o Sistema Nacional de Transplantes, estampa um dos maiores índices de casos de negativas por parte das famílias em permitir as doações: 70%.
Tais fatos é que me levaram a fazer esta reflexão com a comunidade goiana sobre a importância da doação de órgãos, que, em muitos casos, pode ser a única chance de se salvar uma vida.
Imagine, caro leitor, se um dia, por uma fatalidade, você recebesse a notícia de que era portador de uma grave doença. A única esperança de vida seria o transplante do órgão seriamente comprometido. A partir daí, tudo mudaria. A rotina a que estivesse acostumado perderia o sentido.
A palavra urgência se agarraria em seus atos mais simples: não haveria mais como perder tempo.
Com certeza, você descobriria um mundo ao qual talvez não tivesse dado a menor importância.
Um mundo por onde hoje transitam 50 mil brasileiros - pessoas que, como você certamente faria, também se agarram à esperança de receber um órgão para continuar a viver. Um mundo feito de esperas, de silêncios, de lágrimas, desespero e conformismo.
As estatísticas não mentem: mais de 30% das pessoas que esperam por um transplante de coração, por exemplo, morrem na lista de espera. Ao me colocar na posição de um paciente à espera de um órgão, percebi o quão grave é, hoje, a questão dos transplantes no Brasil, e quanto precisamos nos mobilizar para que esta longa e angustiante fila de espera diminua. Entendi o que a ONG Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos, ADOTE, explica em seu site na Internet, quando informa: "O transplante é, sem dúvida, a tão esperada resposta para milhares de pessoas com insuficiências orgânicas terminais ou cronicamente incapacitantes. É, sem dúvida, um procedimento médico com enormes perspectivas, porém impossível de ser executado sem o consentimento de uma população consciente da possibilidade, da necessidade e responsabilidade de depois da morte, destinar os seus órgãos para salvar vidas".
O que lhe peço, caro leitor, é que reflita sobre este assunto sob o ponto de vista de alguém que está na lista de espera. Somente em Goiás, são cerca de duas mil pessoas necessitando de córneas, rins, corações e outros órgãos. Até o dia 15, Goiânia está sediando a 5a. Campanha Nacional de Doação de Órgãos, cujo slogan é Doação de Órgãos - Um Gesto de Amor que Vale a Vida. Sugiro que você aproveite a Campanha para entender melhor o profundo significado deste ato.
Depois da morte, o que deixamos como lembrança é o que fizemos pelos nossos semelhantes. Com certeza, a doação de órgãos é um gesto de grandeza que nunca será esquecido.
Lúcia Vânia
lucia.vania@senadora.gov.br
Senadora, presidente da Comissão de Assuntos Sociais