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Fernando Ney Menezes da Silva

Foram dois anos de angústia. As esperanças, no início muito grandes, se esvaíam à medida que o tempo passava.

A potiguar Fernanda Rodrigues de Menezes, 18 anos, antes uma garota sadia, esportista, já não suportava mais a dolorosa homodiálise que fazia desde os 16, quando descobriu a infecção aguda que tinha no rim.

Ela emagrecia a cada dia, e, a cada sessão de tratamento, saía mais enfraquecida. Um transplante de rim era sua única chance, mas a fila para receber o órgão de um cadáver é conhecidamente desanimadora.

Restava a chance de uma doação intervivos. Algo razoavelmente comum entre parente. Mas não havia ninguém na família de Fernanda que pudesse doar-lhe um rim. Ela dependia agora da solidariedade de alguém desconhecido.

Seu pai, Fernando Ney Menezes da Silva, de 45 anos, entra em ação. Funcionário do Banco do Brasil em Natal (RN), ele utilizou a rede interna de computadores, a BBNet, para apelar por um rim para sua filha que já se tratava em São Paulo.

Surge a primeira resposta. A esperança começava a ganhar contornos de realidade. Um funcionário do BB se prontificou. Fez todos os exames, foi para São Paulo e quando tudo estava pronto, e Fernanda já preparada, o doador desiste.

Após essa decepção, outra colega do BB em Natal, coloca-se a disposição. Fez toda a bateria de exames, mas no último, foi constatado um problema exatamente no ponto de corte do órgão. Tudo parecia dar errado. Mas Fernando não desistiu. Escreveu um e-mail apelando por um doador, agora só para São Paulo. A mensagem circula pelas agências do BB em São Paulo até chegar em Vera Maria de Souza Barbeiro "santa vera", exclama Fernando.

"Eu lembrei de quando tinha 17 anos, estava vivendo tanto, curtindo tanto, fiquei pensando nisso, me sensibilizei e, na hora, decidi doar um rim para Fernanda." Com esse pensamento Vera decidiu abrir mão de um de seus órgãos para salvar a vida da jovem que há dois anos não sabia mais o que era viver. Fernanda ficou feliz com a decisão de Vera, mas diante das duas experiências anteriores, já não nutria grande esperança. "Eu só acredito quando o rim estiver dentro de mim", pensou.

Começa a bateria de exames. Um a um, até que os resultados deram o sinal positivo: seu rim era compatível. Só faltava a cirurgia. " Foi um choro total", descreveu o pai de Fernanda. Vera conta que, algumas vezes teve medo, mas nunca pensou em desistir. "Na véspera da cirurgia, Fernanda estava com mais medo do que eu", afirmou, confirmada por Fernanda.

No dia 16 de setembro de 1998 foi feito o transplante, sem maiores problemas. Vera garante que não sente falta do rim doado. "Estou fazendo tudo que já fazia, já fui até desfilar na Gaviões (Gaviões da Fiel, escola de samba campeã do carnaval paulistano), levo uma vida normal", afirma. Não tão normal assim. Sua vida mudou. Conhecer Fernanda, viver com ela o drama da doença, ouvir seus planos e saber que a realização deles será possível graças ao seu ato, encheu sua vida de uma prazer que ela afirma ser "indescrtível". "Foi a melhor coisa que fiz na vida".

Tão indescrtível quanto é a felicidade que Fernanda sente. "Voltei a viver", comemora. Agora ela está perto da família que tanto ama, está voltando aos estudos - fará supletivo para recuperar o tempo perdido - e vendo a vida de uma outra forma.

"Quem passou pelo que eu passei vê uma realidade diferente. A pessoa pode ter o dinheiro que for, mas isso não a faz diferente. No final, seja rica ou pobre, todos estão precisando de outras pessoas."

De pessoas como Vera

Este artigo foi publicado em um jornal em São Paulo (SP) por Fábio Graner, jornalista e primo de Vera em Março/99. Vera não nos conhecia e nos estendeu a mão, ou melhor, a vida. Logo após em 2000/2001, Diêgo, nosso outro filho faria transplante no mesmo hospital, só que agora com doação da mãe.

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