Verão de 1977. Era domingo, estávamos passeando, eu, minha linda esposa e alguns parentes, pelas belas praias do Guarujá, curtindo as ondas e o sol. Uma das fortes ondas da praia da Enseada nos enrolou, a mim e a meu tio, que involuntariamente acertou com o joelho em minha barriga. Foi uma pancada forte, doeu na hora, mas logo esqueci, pois continuamos brincando nas águas mornas do mar da Princesinha do Atlântico, como era cognominada a cidade do Guarujá, por suas belas e límpidas praias. Porém, quando paramos para almoçar num dos restaurantes rústicos da praia do Perequê, ao ir ao banheiro, percebi que estava sangrando muito pela uretra. Fiquei assustado, mas não contei nada a ninguém. Almoçamos e logo voltamos para Santos, ou melhor, para São Vicente, onde eu morava desde o casamento. Só então contei à minha esposa que ficou também muito assustada, pois ainda saía muito sangue cada vez que eu urinava.
No dia seguinte fui logo cedo ao médico e expliquei o que havia acontecido. Ele me tranqüilizou dizendo que não era nada grave, pois o sangue é muito vermelho e torna a urina muito colorida mesmo com pequena quantidade, mas, ainda assim, pediu alguns exames de laboratório. Fi-los e retornei ao médico uma semana depois, já bem tranqüilo, pois dois dias após o incidente a urina já estava clara e normal. O que foi confirmado pelos resultados dos exames e pela palavra do médico. Muito bom, vida normal então.
Nem tanto... Nos meses que seguiram fui ficando anêmico, emagreci, mais do que já era. Fazia consultas médicas mensalmente, mas os exames de sangue indicavam que a anemia só aumentava, embora eu não sentisse nenhuma dor ou outro sintoma qualquer. Tomava os remédios indicados pelo médico, mas nada adiantava. Até que um dia, no balcão da recepção do Hospital Ana Costa, em Santos, onde fazia os exames de laboratório, encontrei um dos médicos que tinha atendido meu pai há alguns anos atrás. Em uma conversa ele desconfiou que poderia ser um problema renal, já que meu pai havia falecido por causa de problemas renais. Sugeriu então que meu médico solicitasse exames específicos para a função renal, tais como uréia e creatinina, o que foi feito. Foi assim que se descobriu que eu estava com insuficiência renal, e novos exames e chapas de raio-X detectaram que eu tinha o mesmo problema que meu pai, ou seja, insuficiência renal causada por rins policísticos.
Mas o que significa rins policísticos? Cistos são uns caroços que se formam nos rins por motivos vários, mas os rins policísticos são uma doença congênita, ou seja, eu já nasci com esta carga hereditária. Normalmente a pessoa portadora dessa enfermidade não sente nada durante toda a vida, a doença só vai se manifestar numa idade avançada quando os cistos tendem a crescer muito de tamanho e prejudicar a função renal, que é a de filtrar o sangue eliminando as impurezas através da bexiga, via urinária. O que aconteceu comigo é que a progressão rápida da doença foi precipitada pela pancada que eu levei, não na bexiga, mas sim nos rins, pois os meus eram em forma de ferradura, ou seja, unidos pela parte inferior e localizados na parte frontal do abdome. Assim, em pouco tempo os cistos foram crescendo e tomando conta dos rins, comprometendo seriamente a sua função, a ponto de eu precisar de um transplante renal.
Os médicos me disseram isso em julho de 1977, logo após eu voltar de uma viagem que fizera ao interior, mais precisamente Taquarituba, minha terra natal, onde eu tinha tido um ligeiro desmaio devido à hipopotassemia, ou seja, uma queda do nível de potássio no sangue. Ouvir isso foi muito duro, para mim e para todos os meus parentes, principalmente minha esposa, que ficou muito preocupada, mas não abatida, muito menos desesperada, ao contrário, ela foi muito forte e positiva, me dando muita força e coragem para enfrentar os primeiros momentos dessa nova e cruel realidade.
Eu deveria ser internado para começar a fazer os exames preliminares e possivelmente já começar as sessões de hemodiálise, um procedimento usado para filtrar o sangue através de uma máquina chamada rim artificial. Mas os médicos do Hospital Ana Costa, muito conscienciosos e atenciosos resolveram convocar toda a minha família para explicar a situação e a possibilidade de eu ir para o Hospital do Servidor Público, em São Paulo, ou ficar aqui mesmo em Santos onde nunca havia sido realizado um transplante renal.
Após todos esses esclarecimentos houve uma reunião familiar para decidirmos o que fazer. Com a garantia de que eu teria um atendimento especial com uma equipe de médicos santistas orientada pela equipe de um famoso nefrologista de São Paulo, já experiente em transplantes renais, nós, (eu, minha esposa e meus irmãos) ponderamos qual a melhor alternativa. Por um lado poderia ter uma estrutura de um hospital público com uma ala exclusiva destinada a doentes renais, com médicos experientes em transplantes, na capital, longe de minha esposa e com um tratamento quase impessoal, pois seria apenas mais um paciente renal entre tantos outros, por outro lado poderia ficar em Santos, onde teria um tratamento especial por ser o primeiro caso de transplante renal na cidade, e estaria sempre acompanhado de minha esposa.
Com fé em Deus e na equipe médica de Santos, fiquei com a segunda opção, acreditando que faria muita diferença a atenção exclusiva e carinhosa que iria receber. Claro que nunca me passou pela cabeça a possibilidade de não ter sucesso no tratamento e na cirurgia, pois tinha certeza absoluta que tudo correria bem.
Decisão tomada, fui internado e logo começaram os exames, não só em mim mas também nos meus irmãos que se prontificaram todos em participar da seleção para a escolha do doador mais compatível. A seleção indicou meu irmão dois anos mais novo que eu, que morava em São Paulo, professor estadual, casado também com uma professora. Ambos vieram para Santos para serem completados os preparativos finais e a internação do doador para a cirurgia dupla do transplante.
Entre a minha internação, ao final de julho, e a realização do transplante, passaram-se uns quarenta dias, talvez os mais difíceis de minha vida. Não tanto pela gravidade da situação nem pelo risco da própria cirurgia, mas principalmente pela tensão, minha mesmo, motivada pela espera angustiante, e dos meus parentes, motivada pelos deslocamentos constantes dos que moravam em São Paulo e no interior e também pelo ineditismo da situação. O que me tranqüilizava era a presença constante e sempre confortadora de minha esposa e a certeza que eu tinha com relação ao resultado de tudo isso.
Enfim, chegou o dia marcado, 03 de setembro de 1977, um sábado, pela manhã. Na véspera eu tinha assinado um termo de autorização para a cirurgia e estava plenamente consciente dos riscos inerentes ao caso, mas o que eu tinha mesmo era a convicção de que tudo iria dar certo e eu teria uma nova vida pela frente, muito mais significativa e importante e iria vivê-la com toda a intensidade e responsabilidade. Fui levado para o centro cirúrgico logo cedo, assim como meu irmão, o doador, que estaria numa sala contígua, sendo operado por um competente cirurgião e urologista de Santos, e eu seria operado pelo Dr. Cabral, o experiente cirurgião de S. Paulo, que estaria chefiando a equipe. Após a anestesia só me lembro da intensa movimentação e conversa entre os médicos e demais membros da equipe, depois... uma profunda sonolência...
Aproveitando que estou "dormindo" vou fazer uma incursão para o futuro. Como será a minha vida daqui por diante? Já sei que será bem diferente no sentido de que me recuperarei logo do transplante, embora saiba também que existe sempre, por mais compatível que seja o doador e, por mais avançada que esteja a medicina, com drogas anti-rejeição e acompanhamento médico constante, existe, sim, a possibilidade de meu organismo rejeitar o novo órgão. Aliás, isso é natural, pois o Criador nos fez de tal modo que nosso corpo é resistente aos agentes externos que o invadem, tais como vírus e bactérias, e nos prejudicam provocando doenças e infecções. Quando isso acontece o nosso sangue produz anticorpos para combater os invasores indesejáveis, portanto, neste caso específico de transplante, a medicina está lutando contra a lei natural do universo, para evitar que o organismo do transplantado rejeite o novo órgão. E eu, naturalmente, por paradoxal que possa parecer, tenho, por instinto, por desejo e
por convicção, que lutar com todas as forças para que o meu organismo aceite docilmente o rim doado por meu irmão. E farei isso com muita garra, paciência e perseverança que as circunstâncias futuras exigirem, e no fim vai dar tudo certo. Enquanto não der certo é porque ainda não chegou no fim...