Confesso meu medo diante de tudo o que aponte para um atendimento de saúde: seringa, barulho de dentista ou a simples visão de um jaleco branco faz com que minha pulsação acelere, a boca fique seca e procure um jeito de cair fora.
Mas resolvi seguir o exemplo de amigos que fazem doação periódica de sangue (alguns, uma vez a cada semestre; outros, a cada três meses).
Chegar aos bancos de sangue, hoje, até que é agradável. As instalações são modernas, o clima é de acolhida e os profissionais são altamente treinados. O problema inicia quando, depois de alguns exames, passamos para a sala de coleta, onde aparece, pela primeira vez, a famigerada seringa e aquele pacote "enorme" onde o sangue vai ser guardado.
Tenho as chamadas "veias ruins", elas não aparecem. Em muitas ocasiões, isto foi motivo de tortura, pois era necessário ser picado diversas vezes até que encontrassem o ponto certo.
Pois isto não aconteceu uma vez nos bancos de sangue. O papo agradável, a competência técnica, fez com que praticamente não sentisse nada e o tempo passasse rapidamente.
Sem qualquer efeito posterior, saímos dali com um pouco menos de sangue, que vai ser reposto em curto espaço de tempo, pelo próprio organismo. Em compensação, sentimo-nos mais leves, o coração mais feliz, porque fomos capazes de uma boa, uma excelente ação.
Especialmente em janeiro e fevereiro, diminuem as doações e são comuns os pedidos por rádio, televisão e jornal, ou que familiares procurem doadores, com apelos desesperados.
É pena. Existem, ainda, muitos preconceitos a respeito, que acabam enganando possíveis doadores. O que, em muitos casos, pode acabar inviabilizando a recuperação de um paciente.
Doar sangue é se fazer parceiro de um universo. Como, na maior parte das vezes, não sabemos para quem está indo a nossa doação, estamos entrando numa corrente de solidariedade. Um elo a mais. Importante porque poderemos precisar usufruir dele em algum momento no futuro.
Sim, por que quem garante que, algum dia, não serei eu ou você a precisar de doador? E, precisando, saber que há um pacto de sangue que garanta um adequado atendimento?
Vença seus preconceitos e seus medos, doe sangue. Há um sorriso desconhecido em recuperação dizendo-lhe: "Obrigado." O obrigado da vida que você foi capaz de partilhar.
Manoel Jesus
manoel@ucpel.tche.br
Professor da Escola de Comunicação da UCPel.
Presidente do Rotary Club de Pelotas Centenário.