21.01.2012
Com a proliferação dos transplantes com doadores vivos, emergiram as questões éticas. Depois de muitas discussões, se estabeleceu o consenso de que nenhuma pessoa normal deve se submeter a um procedimento de risco – não importa quão pequeno seja esse risco – para tentar salvar uma pessoa muito doente.
Como pacientes graves continuaram recebendo rim, parte do pulmão ou do fígado na tentativa desesperada de continuar a viver, fui convidado a participar de um desses debates com ilustres professores de teologia, filosofia e direito. Os argumentos me pareceram racionais e contundentes. Fui generosamente deixado para o final do debate, talvez para que tivesse tempo de produzir umazinha justificativa que fosse para contrariar preceitos tão sólidos, ainda que destituídos de qualquer resquício de afeto.
Aproveitei para contar-lhes a história da Sabrina, uma loirinha de cabelos cacheados e olhos muito azuis, internada em fase final de sua fibrose cística. Diante das dificuldades de se conseguir, com a urgência exigida, um doador cadavérico cujos pulmões fossem compatíveis com o tamanho de sua caixa torácica de menina, foi cogitada a possibilidade de transplante intervivos, no qual uma parte do pulmão do pai e uma parte do pulmão da mãe substituiriam os pulmões destruídos da Sabrina. Completados os exames, uma surpresa: o pai era incompatível do ponto de vista da tipagem sanguínea.
Quando a mãe, no seu desespero, propôs que se usasse uma metade de cada um dos seus pulmões para substituir os pulmões da filha, expliquei-lhe que isso era impossível, porque o somatório das perdas implicaria numa redução da qualidade e provavelmente da extensão de sua vida futura.
Então a mãe, com a dor da perda antecipada no rosto, me perguntou: “E se a minha filha morrer, o que farei com este excesso de pulmões que Deus me deu? Por favor, dê uma utilidade a minha vida”.
Quando terminei o relato, ninguém pareceu ter vontade de discutir. Aparentemente todos tinham entendido que o amor verdadeiro não suporta limites ao exercício de sua plenitude, e invariavelmente impõe suas próprias regras. Às vezes intangíveis, às vezes dolorosas, mas sempre comoventes.
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