17.07.2010
Transplante de córneas: uma fila absurda
Alexandre Marcon*
Há muitos anos, tenho estado profundamente envolvido com a questão das doações de córneas, e o atual momento, de redução de doadores, preocupa. Entendo que, pela sua importância, o assunto exige profunda reflexão de toda a sociedade gaúcha.
Será que estamos verdadeiramente preocupados com a doação de tecidos oculares ou essa é apenas mais uma das tantas questões "politicamente corretas" que encontram eco apenas na mídia? Por que razão poucos hospitais no Rio Grande do Sul estão efetivamente envolvidos com a doação de córneas?
Não podemos falar em doação de córneas sem citar os bancos de tecidos oculares. Esses bancos, regulamentados por portarias e resoluções do Ministério da Saúde e da Anvisa, atuam na captação, retirada, processamento, preservação, armazenamento e distribuição de tecidos oculares, em parceria com a Central de Transplantes da Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul e as Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTTs).
O mais importante papel dos bancos é assegurar a qualidade do tecido distribuído. Tanto os bancos quanto as CIHDOTTs devem se organizar para que as famílias de pacientes que venham a falecer sejam entrevistadas para a doação de córneas ainda dentro da instituição hospitalar.
O doador de córneas é diferente daquele de múltiplos órgãos e, por essa razão, mais fácil de ser obtido. O doador de rins, fígado, coração, pulmão, por exemplo, está necessariamente em morte encefálica (falecido, porém com o coração ainda pulsando). O diagnóstico de morte encefálica é complexo, ocorre dentro de uma UTI, pode levar horas, necessita de diversos exames especiais e da assinatura de dois médicos, entre outros requisitos.
O doador de córneas independe da morte encefálica - ele é chamado de doador de coração parado - e poucas são as causas da morte que contraindicam o uso das córneas. Fatores como câncer metastático, miopia, diabetes e idade avançada não impedem a doação. Não preciso citar o grande número de mortes violentas (acidentes automobilísticos e ferimentos por arma de fogo, por exemplo) que ocorrem em nosso Estado sem que as córneas sejam doadas.
É inaceitável a existência de uma fila de muitos meses para um transplante de córneas no Rio Grande do Sul se temos potenciais doadores em número muito maior do que o necessário, se todas as etapas para a obtenção do doador de tecidos (investigação de potencial doador e entrevista) são bem remuneradas pelo SUS, se há bancos de tecidos oculares em número suficiente, se existem equipes de transplante para realizar cirurgias e se há regras e normas muito bem estabelecidas regulando todo esse processo. A única parcela dessa equação que está faltando é a entrevista familiar.
O Banco de Córneas da Santa Casa (que atende praticamente todas as doações de tecidos oculares de Porto Alegre e Região Metropolitana, com o aval da Central de Transplantes do RS) continua à disposição para auxiliar as instituições hospitalares na implantação de um programa de doação de córneas ou para realizar com os seus próprios profissionais a entrevista familiar dentro dessas instituições.
Por todas essas razões, nunca estivemos tão perto da chance de eliminar essa absurda e longa fila de espera por um transplante de córneas em nosso Estado.
*Médico oftalmologista, diretor do Banco de Córneas da Santa Casa de Porto Alegre
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