UMA LIÇÃO DE VIDA - Doação de órgãos na sala de aula
3. Do doador ao receptor: uma profunda relação entre seres humanos
A procura e obtenção de órgãos para transplante é uma operação de alta complexidade. Por um lado, e, em especial, pela necessidade de coordenação de cada um dos passos a ser seguido e da sincronicidade entre as várias etapas do processo para que os órgãos sejam viáveis para salvar vidas. Por outro, pelo tipo de profissional exigido na multiplicidade das tarefas e pelo tempo difícil de ser coordenado de modo a atender as necessidades médicas, dos pacientes e dos familiares do doador. Para exemplificar a mobilização de profissionais que um transplante exige, considere a história do primeiro transplante de fígado do Rio Grande do Sul realizado na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, em 15 de junho de 1991.
O processo começa quando uma pessoa tem o diagnóstico de morte encefálica em um Unidade de Terapia Intensiva de um Hospital e essa ocorrência é informada para uma Central de Transplante. Nestas circunstancias tem-se um "potencial doador", ou seja, uma pessoa morta, em condições físicas de ser doador porque a viabilidade dos órgãos está sendo mantida com a ajuda de respiração artificial e do uso de drogas.
Depois que um intensivista notifica a Central de Transplante e avisa para a família que o seu ente querido morreu, esta é abordada por um coordenador de transplante que faz um primeiro contato e se coloca a disposição para responder toda e qualquer dúvida sobre a doação de órgãos que a família tenha. Outro médico, neurologista se o intensivista não for, fará novo diagnóstico de morte encefálica pelo menos seis horas após o primeiro e complementa esse diagnóstico com exame laboratorial, conforme exigência da lei. Confirmado o diagnóstico de morte o coordenador de transplante solicita a doação dos órgãos para a família. Caso a família não concorde com a doação de órgãos o intensivista suspende todo o tratamento de manutenção da viabilidade dos órgãos e o corpo é entregue para as formalidades e cerimonial de sepultamento.
Se a família autoriza a doação, o intensivista será o responsável pela manutenção do potencial doador até que ocorra a retirada dos órgãos. Simultaneamente, vários profissionais do hospital e da Central de Transplante coordenam a realização de uma série de exames físicos e biológicos para avaliar a viabilidade do doador e da compatibilidade com os possíveis receptores em lista de espera. Se a morte ocorreu por cessação das funções neurológicas e se é mantida a função respiratória e cardíaca por meios artificiais tem-se um doador de órgãos e tecidos; se a morte ocorreu por parada cárdio-respiratória o doador é apenas de tecidos (córneas, ossos, etc.) que podem ser retirados até seis horas após o óbito.
A identificação de seleção dos receptores é feita com bases em critérios muito rígidos que consideram, especialmente, a compatibilidade (a identidade biológica entre doador e receptor) e o grau de urgência em que se encontra o receptor.
Cada vez que se inicia um processo como este se renova a esperança daqueles que a aguardam a chegada de um órgão como última alternativa de sobrevivência. Muitas vezes essa esperança transforma-se em frustração porque o processo é interrompido por diversas causas.
É um processo que exige a participação de pelo menos 50 profissionais e um eficiente sistema de comunicação e transporte, mas acima de tudo exige o compromisso humano e solidário dos profissionais das Centrais de Transplante, dos hospitais e principalmente dos familiares dos doadores. Graças a eles uma nova chance é doada para os receptores.
Identificação de Potenciais Doadores nas Unidades de Tratamento Intensivo
- O processo doação-transplante, em geral, começa quando um médico intensivista (ou outro profissional convocado para tal), faz o diagnóstico de MORTE ENCEFÁLICA em um interno vítima de um trauma (acidente de automóvel, arma de fogo, queda, etc..) ou AVC. A pessoa é mantida sob respiração artificial e a Comissão Intra-Hospitalar de Transplante (CIT) é comunicada e assume a coordenação de todo os processos seguintes. O próprio intensivista informa a família. Se a morte ocorreu com parada cardio-respiratória a pessoa poderá doar apenas tecidos.
Morte Encefálica
- Todas as pessoas morrem no momento em que o encéfalo (cérebro + tronco cerebral) deixa de receber sangue, portanto, oxigênio, por causa de uma parada cardíaca irreversível ou por dano crânio-encefálico resultante de um AVC (acidente vascular cerebral) ou de um trauma (forte pancada na cabeça em um acidente de automóvel, por exemplo, ou tiro de arma de fogo), ou por causa de um tumor cerebral. A tecnologia médica atual permite que se defina a morte como a perda das funções neurológicas e não das funções cardio-respiratórias que podem ser supridas artificialmente. Após a constatação da morte cerebral, a viabilidade do coração, pulmões, rins, fígado, pâncreas, etc. é assegurada por respiração artificial (através de máquinas). Assim, esses órgãos podem ser mantidos para um eventual transplante.
Comunicação da Morte Encefálica para a da Família
- O próprio intensivista, ou outro profissional médico autorizado, informa a família sobre o diagnóstico de morte encefálica. Os membros da CIT também participam dessa tarefa sem abordar o assunto de doação de órgãos.
Notificação de Morte Encefálica para a Central de Transplante
- Depois que a família é informada sobre a morte do seu ente querido, a CIT notifica à Central de Transplante. A notificação de MORTE ENCEFÁLICA para a Central de Transplante é compulsória e não depende do processo doação-transplante. A partir da notificação a pessoa passa ser um Potencial Doador. A comunicação entre a CIHT e a Central de Transplante passa a ser quase direta.
Realização de novo Diagnóstico de Morte Encefálica
- Pelo menos seis horas após a realização do primeiro diagnóstico é realizado um diagnóstico confirmatório por outro profissional, obrigatoriamente neurologista se o primeiro não era.
Cuidados de Manutenção do Potencial Doador
- A CIT coordena a realização de uma série de exames clínicos e laboratoriais para avaliar a viabilidade dos órgãos e tecidos para transplante. O objetivo é descartar a existência de doenças transmissíveis, cânceres com metástase, etc.
Processo Doação-Transplante é Interrompido
- Se o potencial doador é portador de doenças transmissíveis o processo é interrompido. Muitas vezes o processo também é interrompido porque o potencial doador tem uma parada cardíaca irreversível.
Abordagem da Família
- A CIHT realiza uma reunião com os membros da família do potencial doador para solicitar a doação. É uma conversa clara e objetiva onde toda e qualquer dúvida, eventualmente, existente é levantada e discutida. Se a família não quer doar essa decisão é aceita com a mesma reação de respeito. Os membros da CIHT não tem o objetivo de convencer a família a doar os órgãos de um ente querido. Apenas esclarecem dúvidas e formalizam o processo de doação, se houver.
Processo Doação-Transplante é Interrompido
- Se a família não autoriza a doação de órgãos, o processo é interrompido. Todos os cuidados de manutenção do potencial doador são suspensos e o corpo liberado para a família realizar as cerimônias de funeral.
Formalização da Doação
- Se a família doa, os membros da CIHT obtém a autorização com a assinatura do um documento específico e dar continuidade ao processo.
Realização de Exame Complementar de Diagnóstico de Morte Encefálica
- Mesmo após a realização de dois exames clínicos, por dois profissionais distintos, a lei exige a realização de um exame complementar gráfico, que pode ser, entre outros: Eletroencefalograma, Ultra-som com Doppler Transcraniano e Angiografia Cerebral.
Retirada dos Órgão e Tecidos
- Desde o início do processo a Central de Transplante trabalha com identificação de potenciais receptores, realizando testes de compatibilidade e avaliando com as diversas equipes médicas as condições de cirurgia dos seus pacientes em lista de espera. Depois de tudo confirmado, são realizadas as cirurgias de retirada dos órgãos e tecidos que serão transplantados. A retirada pode ser de multi-órgãos ou monorgânica. A retirada de tecidos (córneas, pele, ossos, válvulas) é realizada após a extração dos demais órgãos como coração, pulmão, fígado, rim, etc. Os órgãos com menor tempo de duração fora do corpo são retirados primeiro.
Liberação do Corpo
- Após a retirada dos órgãos e tecidos, o corpo do doador, devidamente recomposto é liberado para a família realizar as cerimônias de funeral. Entre a abordagem e essa etapa podem decorrer cerca de 72 horas.
Distribuição dos Órgão e Realização dos Transplantes
- Simultaneamente com todas essas ações é feito um rastreamento dos possíveis receptores para cada tipo de órgãos ou tecidos que são distribuídos segundo a lista de urgência nacional, controlada pela Central Nacional de Transplantes. Caso não exista casos de urgência a distribuição entre os possíveis receptores no âmbito da Central Estadual (ou Regional) de Transplante segundo critérios de compatibilidade biológica e de tempo de espera em lista.