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UMA LIÇÃO DE VIDA - Doação de órgãos na sala de aula

A história do primeiro transplante de fígado no Rio Grande do Sul

No dia 15 de junho de 1991 um longo trabalho de estudo e dedicação começava a ser colocado em prática. Realizava-se o primeiro transplante de fígado do Rio Grande do Sul.

Após vários anos de estudos, cirurgias experimentais em animais e estágios no exterior, a equipe de transplantes hepáticos, pancreáticos e renais da Santa Casa de Porto Alegre, realizou com sucesso o seu primeiro transplante de fígado. A beneficiada foi Marilene da Rosa, 25 anos, natural de Portão, RS.

Marilene, que sofria de uma cirrose pós-hepatite há vários anos, recebeu o fígado da estudante Lara Giovanna Fallavena Spott, 16 anos, vítima de um acidente de moto.

Logo após a constatação de morte cerebral em Lara e do parecer favorável da família para a doação dos órgãos, foram acionados as diferentes equipes de transplantes de Porto Alegre. Da estudante pode ser transplantado além do fígado, o pulmão direito, dois rins e as duas córneas.

Cerca de vinte pessoas foram mobilizadas para o transplante de fígado. A cirurgia iniciou as às 19 horas e 30 minutos do dia 15 e encerrou 12 horas depois. "Logo após o implante do fígado e no momento que começou a funcionar, sentimos que tudo estava correndo bem até aquele momento", relatou o cirurgião Guido Cantisani, chefe da equipe média. Após a cirurgia, toda a equipe mostrava-se satisfeita com o resultado do transplante, porém, a fase mais delicada apenas começava.

Algumas semanas após a cirurgia, quando Marilene se preparava para deixar o quarto 127 do Hospital São Francisco, apostando no seu completo restabelecimento, após vários meses na "fila" de espera por um transplante, escreveu o seguinte depoimento:

Como é bom nascer pela segunda vez!

Primeiro nasci da barriga da minha mãe; agora nasci através da ciência, pelas mãos hábeis de uma equipe médica, pelo gesto grandioso da família de Lara Spotti e pela ajuda de Deus e de meus amigos que formaram uma corrente de energia positiva.

Eu via a vida escorrer por entre os dedos quando se tenta segurar água antes de beber.

Antes do transplante, muitas vezes, eu me revoltava com qualquer coisa, porque sentia a morte se arrastar lentamente para junto de mim, querendo encontrar morada. Mas eu sempre lutei contra isto. Se por um lado eu me revoltava, por outro, eu encontrava forças, apesar da fraqueza que provinha da doença e aliei a força com o otimismo, sempre pensando que iria dar tudo certo e fiz planos sempre para depois do transplante.

Meus familiares, meus amigos, sempre colaboraram comigo, me dando coragem e me ajudando de diversas maneiras para eu agüentar a espera, além da dieta rigorosa que sempre segui a risca, ditada pela minha equipe médica. Contei também com a ajuda do meu marido, sempre paciente e me dando forças, psicologicamente, através de palestras, falando do sucesso de minha cirurgia e da necessidade de me conscientizar que a cirrose hepática é mortal e que a única saída seria o transplante.

Eu penso que a lei sobre doação de órgãos é muito superficial, ela teria que ser complementada com alguns ajustes. Por exemplo: quem assina que será doador em potencial em vida, sua assinatura terá que valer após a morte, sem precisar consultar seu familiares. Isso é assunto que deve ser revisado nas câmaras municipais, nas assembléias legislativas e na câmara federal.

Aos familiares da doadora Lara Spotti vai o meu abraço. Em breve quero conhecer pois são meus familiares também. Tenho certeza que são pessoas de bem, cristãos e humanos acima de tudo.

O nosso mundo está precisando de muitos "Pedro Spotti", de muitas "Deonildas Spotti" e muitas "Laras Spotti", que mesmo na desgraça de sua vida teve o desprendimento de doar o que tinha de mais precioso e continuar viva após a morte em outras pessoas. É um exemplo que deve ser seguido. Essas pessoa certamente terão paz em suas vidas eterna.


Marilene - 08/07/1991

Participaram do transplante de Marilene:

Cirurgiões: Guido Cantisani, Enilde Guerra, Maria Lúcia Zanotelli, Santo Pascual Vitolla, Eduardo Chaise Didone e Paulo R. Motta.
Anestesistas: Hélio Ulisses Drescheler, Alexandre Lisboa Neto, Everton Silva e Friedrich W. Bredmeier.
Hematologista: Francisco Herynkopf.
Intensivista: Euler Manenti.
Gastroenterologista: Cláudio Marroni e Ajácio Brandão.
Patologista: Carlos Tadeu Cerski.
Clínico: Valter Garcia.
Assistente Social: Anna Esther Silveira.
Enfermeiros: Gelir Scolari, Lisiane Acosta, Rosália Lopes, Cinara Duarte, Ana Cristina Reinehr, Júlio César de Paulla, Magda Kollet, Eneida Rabelo e Karim Armange Schneider.
Auxiliares de enfermagem: Marlene Machado, Catarina dos Santos, Ademilson de Oliveira, Suzana Sant´anna, Marcelo Alaburda, Rosângela Gustavo, Cecília Teixeira, Lorena Carpes, Neiva Salete Silva, Ana Júlia Costa e Rosane Ferreira.
Apoio: equipe de Laboratório Central, do Banco de Sangue e da Central de Ecografia e Radiologia.

Parte dessa equipe aparece na foto abaixo:

Equipe que participou do Transplante de Marilene Equipe que participou do Transplante de Marilene

1 - Catarina Santos; 2 - Ademilson de Oliveira; 3 - Júlio César de Paula;
4 - Suzana Sant´anna; 5 - Marlene Machado; 6 - Cinara Lopes; 7 - Euler Manenti;
8 - Enilde Guerra; 9 - Friedrich W. Bredmeier; 10 - Hélio Ulisses Drescheler;
11 - Eduardo Chaise Didone; 12 - Maria Lúcia Zanotelli; 13 - Guido Cantisani;
14 - Francisco Herynkopf; 15 - Santo Pascual Vitolla; 16 - Ana Cristina Reinehr;
17 - Lisiane Acosta; 18 - Marilene da Rosa; 19 - Cinara Duarte; 20 - Gelir Scolari.

Fonte: SANTA CASA Notícias, Junho/Julho - 1991

Três anos de estudos preparatórios

Em agosto de 1986, um grupo reunindo cirurgiões, anestesistas, uma enfermeira e um veterinário, deu início a um projeto arrojado que necessitava de grande persistência, dedicação e infraestrutura. Estava começando a caminhada para o primeiro transplante de fígado do Rio Grande do Sul.

Persistência e dedicação a equipe dispunha, a infraestrutura foi bancada pela Santa Casa e o projeto ganhou o apoio do CNPq e da FAPERGS.

A pesquisa implicava estudos experimentais em cachorros e porcos. Durante três anos, de agosto de 1986 a novembro de 1989, foram realizados 61 experimentos, sendo 33 em cães e 28 em porcos. A cada dois sábados, em média, a equipe se reunia no Hospital de Clínica Veterinária da UFRGS para realizar as cirurgias.

O grupo, coordenado pelo Dr. Guido Cantisani, encontrou em Gelir Scolari, enfermeira, e em Cláudio Natalini, veterinário, um apoio importante para o desenvolvimento do projeto. Gelir coordenava e organizava os preparativos às operações como material, equipamento, preparação da sala, etc. Já Natalini, se encarregava da infraestrutura local, preparação do animal, entre outros afazeres.

Presentes e atuantes estavam também, a equipe de anestesistas. Enfim, um trabalho de equipe complexo que exigia muito de cada um dos componentes. Alguns membros da equipe foram ao exterior acompanhar e participar de programas de pós-graduação, por vários meses, que incluía treinamento clínico e participação em cirurgias em doadores e receptores em centros de referência mundial para transplantes hepáticos. Entre estes podemos destacar os cirurgiões Guido Cantisani e Maria Lúcia Zanotelli, na Inglaterra, Enilde Eloema Guerra e Hélio Ulisses Drescheler, nos Estados Unidos.

A equipe que participou destes três anos de experimentos em animais foi: cirurgiões - Guido Cantisani, Jorge Luiz Antoniazzi, Enilde Guerra e Maria Lúcia Zanotelli; residentes - Cláudio Conti, Márcia Vaz, Giorgio Rabolini, Nicolino Cesar Rosito, Mara Labatut Gres, Francisco Kubaski e Harry Kleinubing Jr.; anestesistas - Hélio Ulisses Drescheler, Alexandre Lisboa Neto e Lúcia Glaci Votto; residentes - Roberto Rigui de Oliveira e Serrano; enfermagem - Gelir Lourdes Scolari e Rosa Elena Rodrigues; veterinário - Cláudio Natalini; secretária - Silviane.

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