Talvez você já tenha ouvido a história, segundo a qual um homem encontra casualmente uma bela garota que o convida ao seu apartamento e, após uma bela noite de "drinks" e outros prazeres fugazes, acorda em uma banheira cheia de gelo e descobre em suas costas duas incisões cirúrgicas indicativas de que os seus rins foram removidos por uma "predadora de órgãos" a serviço de um "mercado negro" que alimenta uma rede clandestina de transplantadores. Se ouviu, então, com certeza, você deparou-se com um dos inúmeros mitos acerca de transplantes de órgãos. Um fato como este, que circula, frequentemente, pela Internet, costuma "fazer a cabeça" de alguns incautos apesar de estar cheio de imprecisões.
Em primeiro lugar, uma incisão para remover os rins de um doador vivo ou não nunca é feita nas costas. Em segundo, o gelo na banheira entra nesta história da mesma forma como Pilatos entrou no Pai Nosso. Em terceiro, por causa da complexidade dos procedimentos médicos e burocráticos seguidos, protocolarmente, na remoção de um órgão de um doador e implante em um receptor - compatibilidade entre doador e receptor, a necessidade de uma equipe numerosa de profissionais com modernas facilidades operaionais - faz com que uma pirataria como a subentendida seja possível somente em uma mente muito fértil.
Um mito que assusta muita gente diz respeito a possibilidade de alguém "voltar" de uma situação de morte encefálica. A morte ocorre quando o encéfalo (cerebro e tronco cerebral) morre o que pode ocorrer por duas vias: o coração e os pulmões param de funcionar ou o encéfalo para de funcionar. Este pára de funcionar em decorrência de um trauma grave. Nestas circunstâncias o coração e o pulmão podem ser mantidos funcionando com suportes somente disponíveis nas UTIs. Morte encefálica é um critério médico, ético e jurídico aceito. Esses critério podem mudar com o tempo. Considere que há poucas décadas passadas ninguém voltava de uma parada cardíaca. Hoje, as técnicas de reanimação são aplicadas rotineiramente e com sucesso, até mesmo por não médicos.
MITO: Se depois de um acidente de carro eu chegar em um hospital e os médicos descobrirem que sou doador de órgãos, eles vão relaxar o tratamento para assegurar que os meus órgãos sejam utilizados para transplante.
FATO: Não existe nenhum conflito de interesse entre os atos de cuidar de um paciente grave, mas com quadro reversível e o de cuidar de um potencial doador de órgãos. Se fosse assim, praticamente não existiria falta de doador de órgãos.
MITO: Sou muito velho para ser doador de órgãos.
FATO: Em princípio não existe restrição de idade cronológica para o aproveitamento de órgãos para transplante. O que importa é o estado fisiológico do mesmo..
MITO: Não sou doador porque a minha religião não permite.
FATO: Todas as religiões são favoráveis a doação de órgãos como um ato de amor ao próximo e de caridade. A decisão de ser ou não doador é pessoal. Veja o posicionamento de algumas religiões:
MITO: Se eu doar os meus órgãos eles serão comercializados para favorecer aqueles que tem mais dinheiro.
FATO: Talvez você consiga vender um dos seus rins, mesmo que essa prática seja absolutamente proibida no Brasil. Contudo, o comércio de órgãos de doador não vivo é inviável na prática por uma série de razões, incluindo compatibilidade biológica, tempo de preservação dos órgãos, número de profissionais envolvidos em um transplante, etc.. Não existe nenhum caso confirmado de comercialização de órgãos de doador não vivo. O comércio de órgãos de doador vivo é legal em alguns países e tolerado em outros. Não no Brasil.
MITO: A doação de órgãos é um ato emocionalmente muito doloroso para um momento de perda.
FATO: As famílias que tem adotado o gesto de doar os órgãos de um ente querido que morreu repentinamente sentem-se mais reconfortadas em saber que parte dele ou dela permanece fluindo entre nós, permitindo que outras pessoas continuem vivendo. Em verdade são sentimentos sobre os quais pouco temos o que falar sem experimentar.
Enquanto a indicação para um transplante e o sucesso do procedimento tem, progressivamente, aumentado o número de doadores cresce muito lentamente. Como resultado, muitas pessoas morrem na lista de espera antes de conseguir um doador.
Uma das formas de mudar esse quadro é ajudar cada brasileiro a adotar uma decisão informada e consciente a respeito da doação de órgãos e transplantes aprendendo mais sobre o tema. Aqui estão alguns fatos que todos devem conhecer: