Estima-se que, atualmente, mais de 600,000 pessoas em todo o mundo estão esperando um transplante de órgão ou tecido. Esse número tende a crescer, porque por um lado cresce também o número de pessoas, antes marginalizadas, que tem acesso aos serviços de saúde. Por outro, tende a diminuir as causas circunstanciais que levam alguém a se tornar um potencial doador de órgãos por causa do rígido controle do transito e a produção de automóveis mais seguros. No Brasil, todos os dias, pelo menos dez pessoas entram nas lista de espera. Entre três e quatro não sairão dessa lista com vida.
Talvez a solução para atender uma lista de espera em crescimento seja a busca por outras fontes de órgãos para transplante que não seja humanos. Existem duas linhas de pesquisa muito promissoras do ponto de vista técnico, mas ambas envolvem implicações éticas e morais que provocam acaloradas e necessárias discussões.
O xenotransplante já é uma técnica experimentada desde o início do século e continua sendo exaustivamente estudado em caráter experimental mesmo em humanos. O caso mais notável ficou conhecido com "Baby Fae", uma menina que em 1984 recebeu um coração de um babuíno, em Loma Linda, na Califórnia. Ela sobreviveu por vinte dias. Recentemente, em 1996, parte da medula óssea de um babuíno foi injetada em um paciente com AIDS, com o objetivo de aumentar a sua resistência contra o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV).
A despeito da relação de parentesco dos primatas conosco, os macacos não seriam os "doadores" de órgãos ideais, por causa da freqüente infecção por uma grande variedade de vírus e por seu lento ciclo reprodutivo.
O porco, do ponto de vista anatômico, é o animal mais promissor nessa linha de pesquisa na procura por um "doador" alternativo. Além do aspecto de ser um animal que se cruza rapidamente gerando uma "ninhada" de filhos, todos potenciais doadores, ele já está sob uso dos humanos há milhares de anos, na forma de patês, lingüiças, presunto, banha, etc.
Se o problema fosse apenas de anatomia e de ciclo de reprodução, uma das questões nodais dos transplantes estaria resolvida e os porcos passariam, finalmente, a ser criados em condições assépticas. Ao contrário do que muitos acreditam, eles realmente não gostam de sujeira. A rejeição que ocorre nos transplantes entre humanos é muito mais crítica nos xenotransplantes. Outro problema é que os porcos são portadores de vírus, pacificamente localizados no seu genoma, cujos efeitos no organismo humano são ainda imprevisíveis. Esses vão desde o aparecimento de doenças então desconhecidas até o desenvolvimento de "cepas" mutantes que poderiam voltar ao hospedeiro com outras propriedades. Além disso, já são conhecidas pelo menos 25 doenças de suínos que podem infectar humanos. O vírus da "influenza" de 1918, que segundo os opositores dos xenotransplantes se assemelha ao da gripe dos suínos, matou mais gente do que qualquer outra epidemia da história moderna, incluindo a AIDS.
Os opositores dos xenotransplantes apontam várias alternativas para resolver o cruciante problema das lista de espera em crescimento, incluindo a prevenção de doenças que levam a indicação de transplantes. Nessa linha, um interessante argumento é que muitas doenças, ironicamente, resultam do consumo de bacon e costeletas de porcos, associado a um estilo de vida pouco saudável.
Outra questão relacionada ao xenotransplante é o custo envolvido para a obtenção de um animal transgênico que não seja rejeitado pelo organismo humano. Além disso, alguns cientistas estão levantando uma questão até então desconsiderada: os órgãos do porco, a despeito da semelhança com os dos homem, quer em tamanho, anatomia, etc.. será fisiologicamente funcional nos humanos?
Outra linha de pesquisa é a clonagem terapêutica para obtenção de células tronco - células precursoras de todas as outras células do organismo - e o cultivo de células "in-vitro" em meio adequado de modo que elas se diferenciem e produzam o órgão que se quer. A enorme vantagem desse processo é que o novo órgão poderia ser produzido a partir de células da própria pessoa que precisa de um transplante, além de contornar todas questões éticas relacionadas com o uso de células tronco derivada de embriões.