Um transplante, muitas vezes, é a única solução para sanar uma falha irreversível do rim, fígado, coração, pulmão, córneas, ou de outra parte do corpo. Se esta é a sua situação, ou de um seu familiar, ou de alguém que lhe é caro, é muito importante saber que esta é, sem dúvida, e cada vez mais, a melhor rota de resgate de pessoas em fase terminal ou cronicamente incapacitas, mas é também necessário saber que é uma alternativa acompanhada de receios e preocupações.
Se esta não é a sua situação, ou de um seu familiar, ou de alguém que lhe é caro, acreditamos que também seja importante saber que o transplante, muito além de uma intervenção médica, é a terapia que mais mobiliza emoções e atitudes de boa vontade de muitas pessoas ao mesmo tempo. Somente são possíveis, a despeito dos admiráveis avanços da Medicina que os tornaram viáveis, com a participação de uma personagem – além do médico e paciente – fundamental: o doador. Por mais evoluída que seja a tecnologia médica disponível, por mais desenvolvida que seja o funcionamento da estrutura hospitalar, não existe transplante sem o envolvimento da sociedade em todas as etapas do processo: quer seja no apoio às campanhas de esclarecimento público de estímulo à doação de órgãos, ou no acompanhamento e controle das listas de espera, quer seja na compreensão e aceitação - desde que obedecidos os limites das fronteiras da bioética - dos avanços científicos que beneficiam a humanidade. Ao falarmos do envolvimento da sociedade não estamos nos referindo a algo abstrato. Estamos falando de nós próprios, pois somos nós, em última instância, os doadores de órgãos.
Existem poucas – se existem - situações mais angustiantes do que esperar por um transplante. A lista formada pelas pessoas que precisam de um transplante para voltar a ter uma vida normal, ou para sobreviverem, não pára de crescer. E cresce também, felizmente, a quantidade de doadores. Estima-se que no Brasil esse crescimento seja da ordem de 20% desde que entrou em vigor a atual “lei dos transplantes”, como resultado de várias medidas do poder público no que se relaciona a organização do sistema de captação de órgãos, treinamento dos profissionais e financiamento dos procedimentos. Atualmente, mais de oitenta por cento dos transplantes são pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), através do Fundo Nacional de Transplante, constituído por um aporte de recursos extrateto, ou seja, são recursos do SUS além daqueles, normalmente, destinados aos Estados e Municípios. Esse aparente privilégio concedido a uma terapia é necessário, porque os transplantes constituem a única que depende da boa vontade da sociedade para que ela própria seja beneficiada. Por isso, todos os transplantes, sem exceção para os beneficiados, sejam eles ricos ou pobres, deveriam ser financiados pelo poder público. Este seria um critério de equidade que, certamente, aumentaria o número de doadores, porque acabaria de vez com a crença equivocada de uma parcela da população segundo a qual os ricos “furam a fila dos transplantes”. Essa proposta já foi levada ao Ministério da Saúde que está avaliando.
A despeito do mencionado crescimento do número de doadores, é preciso que esse número seja ainda maior, porque, como já foi dito, a “fila” de espera não pára de crescer. Existem pedras no caminho. Por um lado, a cada ano no Brasil seria possível a alocação de dez mil potenciais doadores, mas menos da metade chega ao conhecimento das Centrais de Transplantes. Por outro, para uma importante parcela dos potenciais doadores as Centrais de Transplantes recebe um NÃO dos familiares. Sub-notificação e negativa familiar são as principais pedras no caminho dos transplantes.
A remoção desses entraves não depende apenas de leis e de financiamento. Depende de um intenso e contínuo trabalho de educação e informação de toda a sociedade, sem deixar de contar com o incentivo para atitudes de boa vontade de todos, em especial dos profissionais de saúde, principal elo da cadeia doação-transplante. Como disse John (da Banda Patofu) “é preciso entender que somos todos ao mesmo tempo “doadores” e “recebedores”, ou melhor, talvez o tempo diga a cada um em que lado está. Vivemos, sim, num só mundo, e ele ainda não está pronto, vamos fazer de uma vez o que está ao alcance de todos”. Neste sentido, ser doador é um ato de boa vontade que não significa apenas permitir que uma partes de nós, seja em vida ou depois da morte, passe a integrar o corpo de outrem. É também doar as nossas aptidões pessoais e profissionais para tornar a vida - através dos transplantes – possível.
A pessoa que, consciente e espontaneamente, toma a decisão de doar uma parte do seu corpo em vida a uma outra pessoa querida, ou de destinar após a morte o seu coração, fígado, pulmão, rim para um desconhecido está praticando um ato de generosidade que transcende os limites do compromisso ou dever formal, que o filósofo Kant conceituou como “obrigação ativa”. A obrigação ativa não implica na perda de liberdade de decisão, porque tem como pressuposto o livre arbítrio do doador. O ato de doação, em sua essência, é sustentado pela bondade, desprendimento, incondicionalidade, pela renúncia e, por vezes, pelo sacrifício e constitui-se, além disso, em atitudes emocionalmente prazerosas para o seu autor. Para Kant “a boa vontade não é boa pelo que possa fazer ou realizar, não é boa pela sua aptidão para alcançar o fim a que se propõe; é boa pelo querer, ou seja, é boa em si mesma. Considerada por si só, é, sem comparação, muito mais valiosa do que tudo o que poderia ser obtido por meio dela”. Por isso, a doação no seu sentido mais amplo, constitui uma forma extraordinária de virtude pessoal e coletiva.
Esta publicação faz parte de um conjunto de ações desenvolvidas e/ou apoiadas por várias instituições com o objetivo de ajudar o leitor a formar a sua opinião e atitude diante da opção de ser ou não ser doador de órgãos. Ela só foi possível, em primeiro lugar, graças às atitudes de boa vontade da RB Propaganda, deste jornal, - Diário Popular – e dos patrocinadores. A lista de colaboradores que assinam os textos dispensa apresentação, mas é preciso tornar público os nossos agradecimentos.
É importante também mencionar a participação da RBS TV Pelotas na divulgação da campanha “Doação de Órgãos: A Vida em Suas Mãos”, iniciada em abril, que conseguiu mobilizar uma parte expressiva da população e, em especial, as instituições de saúde locais. Passados seis meses o número de notificações (potenciais doadores) já é 25% superior ao acumulado entre 1998 e 2000. Mais de trinta pessoas foram beneficiadas com transplantes e, entre elas, várias somente estão vivas, em outras localidades, porque portam um coração, pulmão ou fígado que já pertenceu a um desconhecido distante. Para esse “desconhecido”, que para nós nunca esteve tão presente e sua família é que dedicamos o nosso trabalho.
ADOTE