Transplante é um procedimento cirúrgico que consiste na substituição de um órgão ou tecido, irremediavelmente doente, que compromete a vida de uma pessoa (RECEPTOR) por outro órgão ou tecido de outra pessoa chamada de DOADOR(A), com órgãos ou tecidos sadios. Doador e Receptor devem compartilhar uma série de características biológicas comuns, como grupo sanguíneo e tamanho do órgão, por exemplo. No momento atual o transplante é a melhor alternativa de tratamento - quando não é a única - em muitos casos de doenças irreversíveis de pulmão, coração, fígado, rim...
Um órgão ou tecido transplantado é chamado de enxerto. Conforme a origem do enxerto, o transplante pode receber as denominações de:
Embora alguns historiadores vejam na mitologia alguns antecedentes de xenotransplantes, por exemplo, o minotauro (homem com cabeça de touro), a esfinge (leão com cabeça de mulher), a referência mais antiga, depois de Adão e Eva (a criação da mulher a partir de uma costela de Adão sugere um tipo de transplante), é ao cirurgião chinês Hua-To, que viveu entre 136-208 d.C, a quem se atribui a realização de transplantes de órgãos com finalidade terapêutica. Outra referência histórica é aos médicos gêmeos Cosme e Damião, que por volta do ano 280 realizaram um transplante de perna de um doador cadáver. Por esse e outros milagres Cosme e Damião foram elevados a categoria de santos da igreja católica. Na iconografia eles aparecem realizando o transplante, com uma característica especial de que o doador era negro e o receptor branco.
Lendas e mitologia a parte, uma das contribuições mais importantes para os transplantes foi a do médico francês Alexis Carrel (1873-1954), no início do século XX, ao desenvolver pesquisas, principalmente relacionadas com cirurgia experimental e transplantes de órgãos e tecidos. Em 1912 desenvolveu a técnica de anastomose de vasos sanguíneos, fundamental no caso dos transplantes, e em 1910 demonstrou que esses vasos poderiam ser armazenados por períodos relativamente longos para posterior uso em cirurgias. Em 1908, implementou a técnica para o transplante de um órgão inteiro e em 1935, em colaboração com Charles Lindbergh, desenhou uma máquina para suprir com nitrogênio um órgão separado do resto do organismo. Charles Lindbergh, o primeiro aviador a fazer a travessia do atlântico, ajudou na parte mecânica do dispositivo. Os principais aspectos desse trabalho foram apresentados e discutidos no livro "The Culture of Organs". Carrel foi o ganhador do Nobel de Medicina de 1912.
Uma breve história dos transplantes, na forma ilustrada, pode ser vista AQUI, ou com muito mais detalhes no site DOE
Os transplantes podem ser realizados com órgãos ou tecidos provenientes de doadores vivos relacionados (pai, mãe, irmãos, filhos), não relacionados (cônjuge, por exemplo) ou de cadáveres. Os transplantes de órgãos ímpares (coração, fígado, pâncreas, intestino, etc.) somente podem ser realizados com enxertos provenientes de cadáveres. Entretanto, essa regra já foi e continua sendo quebrada para o caso do fígado e de pulmão, pois já estão sendo realizados transplantes hepáticos e pulmonares intervivos, nos quais são retiradas apenas pequenas partes do fígado ou do pulmão de um adulto para o implante em uma criança, com resultados muito animadores. Surpreendentemente, existe também transplante de coração com doador vivo. Ele ocorre em algumas situações em que o receptor com doença pulmonar recebe um transplante duplo de pulmão-coração e o seu próprio coração é implantado em outra pessoa. Essa modalidade de transplante é denominada de transplante dominó.
Um transplante dominó também ocorre quando uma pessoa, recebe um fígado de um doador cadáver (ou parte do fígado de um doador vivo) e o seu fígado é implantado em outra pessoa. Nessa modalidade de transplante pode ocorrer que mais de uma pessoas sejam beneficiada com o fígado do doador/receptor, já que o fígado pode ser dividido em mais de uma parte para ser implantado. O que possibilita esse tipo de transplante é que a doença que promoveu a necessidade do transplante da pessoa que também fez a doação do fígado somente se desenvolverá no(s) outro(s) receptor(es) 15 ou 20 anos mais tarde.
Transplantes como de medula óssea são sempre realizados com doadores vivos, mesmo que em alguns casos sejam também realizados com células provenientes do cordão umbilical. A medula óssea tem a capacidade de rápida regeneração, o que não causa nenhum problema para o doador.
Os transplantes têm o objetivo de salvar vidas (coração, fígado, pulmão e medula óssea) e/ou de melhorar a qualidade de vida de pessoas com doenças terminais ou crônicas incapacitantes. O transplante de rim, por exemplo, retira a pessoa do martírio da diálise, que interfere profundamente em sua vida emocional e produtiva, enquanto os transplantes de pâncreas, ou de rim/pâncreas combinado, podem salvar os pacientes diabéticos da insuficiência renal e da cegueira. Acrescente-se a isso os benefícios agregados com o fim da constante injeção de insulina e do rígido e estressante controle da dieta alimentar. É possível imaginar que nesse momento alguém esteja vendo esta página graças a um transplante de córneas.
A indicação para um transplante é feita com muito critério. Embora os portadores de determinadas doenças sejam potenciais candidatos a um transplante, nem todos preenchem os requisitos para serem incluídos em uma lista de espera. Além de vários aspectos médicos, são ainda levados em consideração possíveis problemas que, eventualmente, dependentes das condições de vida, possam ter influência nos resultados. O médico, o candidato e os seus familiares devem levar em consideração pelo menos quatro questões principais:
As indicações de transplantes têm aumentado nos últimos tempos, por causa da relativa facilidade operativa da terapia e, também, pelo aumento da expectativa de vida da população, bem como por causa do incremento do número de pessoas que têm acesso aos serviços de saúde, mesmo nos países em desenvolvimento. Desse fato, resulta a necessidade de uma maior participação do poder público e da sociedade, em geral, no sentido de aumentar a procura, doação e captação de órgãos.
Nas doenças renais crônicas, mais de sessenta por cento dos portadores tem indicação clínica para um transplante. Para os demais, existe apenas a alternativa das diálises. Estas também permitem que aqueles com indicação de transplante tenham um tempo de espera mais elástico. Existem pessoas esperando um transplante renal há mais de dez anos. No caso de coração, fígado, pulmão, as situações são mais drásticas. Em geral, quando alguém é indicado para um transplante cardíaco não pode esperar mais do que seis meses para que a cirurgia aconteça.
Os resultados dos transplantes melhoraram muito nos últimos anos. Em termos genéricos, a sobrevida em um ano varia de 70% a 90% e em três a cinco anos, é superior a 70%. Isso significa que em cada dez pessoas que se submeteram a um transplante no final de 1995, sete ou mais estavam vivas na passagem do milênio. Isso é pouco? Talvez seja, mas considere que provavelmente nenhuma delas que necessitava de um pulmão, fígado ou coração sobreviveu até o Natal de 1996.
Vários fatores estão relacionados com esses resultados. Entre eles, os principais são: gravidade da doença da pessoa na época da cirurgia, critérios da seleção do doador - quanto maior a compatibilidade com o receptor, melhor o resultado - e a experiência da equipe médica que realiza o transplante. É importante, também, o cuidado com que o receptor trata o seu novo órgão, seguindo estritamente as recomendações do seu médico.
Embora os transplantes sejam hoje uma rotina em um grande número de hospitais, a chance de se conseguir um doador é relativamente baixa. Considere que a prevalência de causas circunstanciais que leva alguém a se tornar um potencial doador é da ordem de 60 por milhão da população, por ano. Em outras palavras, 60 pessoas em um grupo de um milhão pode chegar a situação de morte encefálica a cada ano. Ao mesmo tempo, 300 pessoas por milhão pode, potencialmente, desenvolver insuficiência renal crônica e vir a precisar de um transplante de rim, por exemplo. Essa relação serve também para demonstrar que a probabilidade de sermos doadores de órgãos é cinco vezes menor do que a de necessitar de um transplante.
A situação dos transplantes no Brasil clama por ações mais efetivas no setor, mesmo que muito tenha sido feito nos últimos quatro anos.
Mais de 45.000 brasileiros de todas as raças, religiões, classes sociais, adultos e crianças estão esperando transplante. Para muitos a doação representará a diferença entre a vida e a morte. Para outros, a oportunidade de ver, andar, voltar a uma vida produtiva, enfim, melhorar significativamente a qualidade de vida. O número de transplantes realizados a cada ano atinge apenas em torno de 10% dessa lista. A nossa posição no cenário mundial é sofrível. Temos 4,5 potenciais doadores por milhão da população por ano (pmp/ano), enquanto a Espanha (ver figura abaixo) tem 34, o Uruguai 9,0 e a Argentina 6,6.
Número de doadores por milhão de habitantes por ano (pmp) em alguns países.
Os grandes obstáculos ao incremento do número de transplantes no Brasil são:
O transplante como ato médico tem uma complexidade particular, que constitui um desafio para a medicina e para a sociedade como um todo. Sem o pleno consentimento da sociedade não existe transplante. Assim devem ser desenvolvidas, em todos os lugares possíveis, ações de informação e conscientização a cerca da importância, necessidade e responsabilidade social de uma atitude positiva com respeito a doação de órgãos para salvar vidas. Pretende-se que o projeto UMA LIÇÃO DE VIDA - Doação de órgãos na sala de aula seja uma dessas ações.