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O Herói da vida

O Herói da vida

Sábado, dia dezoito de setembro de 2015, presenciei um pai falar sobre o seu filho. Era um evento sobre doação de órgãos.

Na poesia épica Ilíada, o maior guerreiro grego, Aquiles, soube que morreria cedo. A mãe, deusa Tétis, disse-lhe que a vida dele seria o cumprimento do seguinte destino: alcançar enorme glória, matando Heitor, o terrível troiano. Para evitar isto, Aquiles poderia não lutar, e procurar fazer outra coisa. Abriria mão da glória, mas viveria por mais tempo. Por mais quanto tempo? Se ele não cumprisse o seu desígnio, viveria uma vida pequena, no sentido de sem valor.

O grego antigo se referia a si mesmo como "mortal", aquilo que passa. As coisas que não passam eram divinas. A presença da morte no horizonte da experiência do grego levava-o a tomar a vida como devendo ser o cumprimento de algo. Os grandes homens eram assim considerados por terem grandes feitos a cumprir.

No teatro trágico grego, o homem também tomava conhecimento do seu destino, e contra ele combatia com máxima força. Nietzsche apontou que havia aí o encontro entre uma força avassaladora, de ordem divina ou cósmica, e o homem, que se heroifica ao resistir a ela com tudo o que podia. Ao final, o destino se cumpria, mas o herói, nem por um momento, havia desistido, fraquejado. A plateia se emocionava.

Era bela a dramatização do cosmos e da vida como presenças muito maiores do que o homem, e o que o homem fazia, levantando e mostrando a sua força. A tragédia era transformada em arte.

Na vida, a todo momento ocorre o que não gostaríamos que ocorresse: o inesperado, o desagradável. Ocorre o terrível, incontornável, injustíssimo. Ocorre com pessoas boas, que procuram ser saudáveis. E também com quem supõe conhecer aonde sua vida vai chegar. A morte não está em nosso horizonte: acreditamos que, depois de mortos, subiremos aos céus exatamente como somos, para uma vida eterna, espiritual.

A perda de uma vida não é exatamente a cessão do funcionamento de um organismo: é a perda do que se imaginava que seria uma vida, do que pensamos e planejamos para as características físicas e de modo de ser, e das realizações, de filhos, pais, cônjuges, amigos, etc., já existentes ou vindouros. A morte é a perda dessas expectativas. É aquilo que está além do limite do que conhecemos. É o inconcebível.

O pai, que eu conheci sábado, há dez anos descobriu que seu filho, enquanto este ainda era, organicamente, um feto, teria poucos meses de vida. O sofrimento foi enorme. A meu ver, não houve choro. Houve a recriação da vida do seu filho.

Não é possível concebermos o não ser de algo. Há quem amargure, por toda a vida, um ser que foi perdido, por causa da falta de sentido do que não é, mais. A proximidade da morte fez o pai repensar o que é o seu filho. Da vida que ele esperava para o filho passou para a vida que efetivamente o bebê tinha, diante dos olhos dele. A vida é o que ocorre. Qualquer força, por maior que seja, não o impediria de ver o filho que sorria e brincava. Seu bebê estava vivo, para viver a vida que estava tendo.

Ocorria, com seu filho e com ele mesmo, a vida. A vida ocorre com todos os que estão vivos. Então temos que admitir que exista a Vida, uma deusa. O pai reparou nela, agindo por toda a parte. A morte, ocorrência injusta, em si mesma, não pode ser adorada e favorecida por homens burocratizados, que não deixam vidas se prolongarem. O pai tornou-se um agente da Vida, sendo um construtor da possibilidade da doação de órgãos. E contra tudo o que dificulta as doações, deixando de evitar mortes, parecendo adorá-la, ele foi um herói da Vida.

Este pai compreende que o destino do seu filho bebê é ser bebê, é encantar-se com o mundo e ensinar os pais. Essa é a vida dele, e foi cumprida com alegria. A vida está aí para ser cumprida, e ninguém precisa morrer antes do tempo. A Vida está em todos, querendo que cumpramos a nossa vida para, assim, nos eternizarmos. O filho deste pai eternizou-se, foi o bebê mais feliz e atento. Foi o mais vivo, dentre os vivos. ("Repare no olhar dele! Que bebê vivo!") Este pai eternizou o seu filho. Ele não se amargurou. Amargurar-se é se dar por vencido antes do fim. Compreendeu qual era a vida do seu filho. Compreendeu a própria vida. A Vida.